Blackwater ou a terceirização da guerra

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Para quem não viu o fantástico documentário da BBC/HBO “Why we fight”, ou a série “Jericho” (canal AXN), agora pode consultar um livro altamente esclarecedor, do jornalista Jeremy Scahill – “Blackwater – The rise of the world’s most powerful mercenary army”. A advertência do general Dwight Einsenhower (1890-1969), no final de seu governo, de que a democracia americana corria sérios riscos com a formação de um poderoso complexo industrial militar, tornou-se dramaticamente atual. Ainda na década de ’60, o jornalista Fred J.Cook levou a sério a advertência de “Ike”, um convicto liberal, e escreveu um best-seller ─ O Estado Militarista ─, que se tornou uma referência para todos os estudiosos de política internacional e, principalmente, dos meandros da Guerra Fria.

Grupos paramilitares ou exércitos mercenários sempre existiram ao longo da História, desde o Império Romano. Esses grupos geralmente atuavam à margem dos conflitos bélicos, em nome de interesses ideológicos obscuros ou na defesa de concretos interesses econômicos. No século XX, era notória a ação desses grupos nas guerras de libertação nacional nas antigas colônicas africanas. O mais famoso deles foi a Legião Estrangeira, mantida pela Estado francês no então território colonizado da Argélia.
Em Angola, por exemplo, somente há poucos anos foi extinta a Unita, grupo mercenário comandado por Jonas Savimbi, que era financiando tanto por multinacionais petrolíferas, mercadores de diamantes ou pela República Popular da China, em sua disputa com a antiga União Soviética. Até hoje são visíveis os dramáticos efeitos das ações terroristas de Savimbi e seu bando: uma legião de jovens angolanos com membros amputados, vítimas das milhares de minas terrestres espalhadas ao redor das aldeias.

A Blackwater é um novíssimo conceito no complexo cenário estratégico internacional. Trata-se de uma empresa privada bilionária que tanto pode atuar na guerra do Iraque como no controle de populações civis em território norte-americano, como ocorreu logo após a tragédia do furacão Katrina.

Esperemos que com a ascensão de Barack Obama essa tendência belicista seja erradicada, com a proibição desses
grupos mercenários, hoje transformados em megacorporações bilionárias a serviço da barbárie.
Abaixo, um pequeno resumo do volumoso livro de Jeremy Scahill.

A ascensão da Blackwater

A Blackwater foi fundada em 1996 pelo cristão conservador e multimilionário ex-SEAL (forças de elite da marinha norte-americana) Erik Prince – descendente de uma família rica de Michigan, cujas generosas doações monetárias contribuíram para levar ao auge a direita religiosa e à revolução republicana de 1994. No momento de sua fundação, a empresa consistia essencialmente na fortuna privada de Prince e numa vasta propriedade de 5.000 acres [2.000 hectares], situada perto do Great Dismal Swamp, em Moyock, Carolina do Norte. A sua visão foi “satisfazer antecipadamente a procura do governo por subcontratação de armamento e formação militar”. Nos anos seguintes, Prince, a sua família e os seus aliados políticos encheram de dinheiro os cofres das campanhas republicanas, apoiando a tomada de controle do Congresso e a ascensão de George W. Bush à Presidência.

Embora a Blackwater obtivesse alguns contratos durante a era Clinton, que era favorável à privatização destes serviços, foi no entanto com a “guerra contra o terrorismo” que chegou o momento de glória da empresa. Quase do dia para a noite, depois do 11 de Setembro, a empresa transformou-se na protagonista da guerra global. “Estou no negócio de formação militar desde há quatro anos e só agora comecei a ter uma pequena noção de quão seriamente as pessoas encaram os assuntos de segurança”, disse Prince ao apresentador do noticiário da FOX, Bill O’Reilly, o hiperconservador âncora da rede de TV controlada por Rudolph Murdoch, pouco depois do 11 de Setembro. “Agora o telefone não pára de tocar”, comemorava.

De todas estas chamadas, uma era da CIA que acabou por contratar a Blackwater para trabalhar no Afeganistão, nas operações iniciais norte-americanas nesse país. Nos anos seguintes, a empresa converteu-se num dos grandes beneficiários da “guerra contra o terrorismo”, ganhando quase 1 bilhão de dólares em contratos, que se conheçam, com o governo, muitos deles sem qualquer concorrência ou licitação. Em apenas uma década, Prince ampliou as instalações de Moyock para 7.000 acres [2833 ha], fazendo dessas instalações a maior base militar privada do mundo. A Blackwater tem neste momento 2.300 executivos espalhados por nove países, e mais 20 mil prontos para entrar em ação. Mantém uma frota de mais de vinte aeronaves, incluindo helicópteros de combate, e uma divisão de inteligência própria, e já constrói aeronaves de reconhecimento e sistemas de sinalização de alvos.

Lucrando com a tragédia do Katrina

Em 2005, logo depois do furacão Katrina, a suas forças deslocaram-se para Nova Orleans, cobrando ao governo federal 950 dólares por homem/dia – chegando a atingir mais de 240 mil dólares por dia. No seu auge, a empresa chegou a ter cerca de 600 contratados distribuídos desde o Texas até ao Mississipi. A partir de sua intervenção no cenário do Katrina a Blackwater tem desenvolvido uma atitude agressiva na obtenção de contratos internos, abrindo uma nova divisão de operações nacionais. A Blackwater promove os seus produtos e serviços junto ao Departamento de Segurança Interna (Department of Homeland Security ), e os seus representantes já se reuniram com o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger. A empresa solicitou a obtenção de licenças para operar em todos os estados costeiros norte-americanos, e também amplia a sua presença no interior dos EUA, com a abertura de novas instalações em Illinois e na Califórnia.

A Blackwater obteve o seu maior contrato do Departamento de Estado, que consistiu no fornecimento da segurança dos diplomatas e das instalações norte-americanas no Iraque. Esse contrato teve início em 2003, com um acordo sem licitação de 21 milhões de dólares, para proteção do então procônsul no Iraque, Paul Bremer. A Blackwater também forneceu a segurança dos embaixadores seguintes no Iraque, John Negroponte e Zalmay Khalilzad, assim como de outros diplomatas e funcionários do país ocupante. As suas forças protegeram mais de 90 delegações do Congresso no Iraque, incluindo a da sua atual presidente, Nancy Pelosi. De acordo com os últimos registros governamentais, a Blackwater faturou, desde Junho de 2004, 750 milhões de dólares só em contratos com o Departamento de Estado. Atualmente encontra-se envolvida numa intensa campanha de lobbying para que seja enviada a Darfur como força de paz privada.

A Blackwater contratou desde o 11 de Setembro, como executivos seniores, alguns altos funcionários possuidores de bons contatos na administração Bush. Entre eles encontra-se J. Cofer Black, antigo chefe do contraterrorismo da CIA e o homem que levou a cabo a caça a Osama Bin Laden depois do 11 de Setembro, e ainda Joseph Schmitz, antigo Inspetor Geral do Pentágono, responsável pelos acordos com as empresas privadas de segurança, entre elas a Blackwater, durante a maior parte da “guerra contra o terrorismo” – algo de que foi acusado de o não ter feito eficazmente. Já no final da gestão de Schmitz no Pentágono, o poderoso senador republicano Charles Grassley lançou uma investigação do Congresso para averiguar se Schmitz tinha “abafado ou redirecionado duas investigações criminais em curso” sobre altos cargos da administração Bush. Vendo-se debaixo de fogo cruzado de ambos os partidos, Schmitz demitiu-se e entrou na Blackwater.

A Blackwater sai das sombras

Apesar de ter desempenhado um papel central, a Blackwater esteve, de uma forma geral, operando nas sombras até 31 de Março de 2004, precisamente quando quatro dos seus soldados privados, em ação no Iraque, foram emboscados e mortos na cidade de Faluja. Os cadáveres foram queimados por uma multidão que os arrastou pelas ruas, pendurando dois deles numa ponte sobre o rio Eufrates. Este foi o momento que, sob muitos aspectos, alterou o rumo da guerra no Iraque. Alguns dias após estes acontecimentos, as tropas norte-americanas assaltaram Faluja, matando centenas de pessoas e deslocando milhares, exacerbando assim a feroz resistência iraquiana que assombra as forças de ocupação até aos dias de hoje. Para muitos americanos esta foi a primeira vez que ouviram falar dos soldados privados. “As pessoas começam a perceber que se tratava de um fenômeno muito mais amplo”, comentou o congressista David Price, um democrata da Carolina do Norte, que disse ter começado a seguir o rastro das contratadas privadas depois dos acontecimentos de Faluja. “Provavelmente, sou como a maioria dos membros do Congresso, que apenas começaram a ter consciência e interesse por este assunto após este incidente”.

O que não é do conhecimento geral é que, depois dos acontecimentos de Faluja, os executivos da Blackwater desencadearam uma ousada operação de relações públicas em Washington, no sentido de capitalizar o recente reconhecimento da sua empresa. Um dia após a emboscada, esses executivos contrataram o Alexander Strategy Group, uma empresa de lobbying dirigida por altos funcionários do então líder da maioria republicana, Tom DeLay, pouco antes da falência desta empresa, no auge do escândalo de Jack Abramoff.
Uma semana após a emboscada, Erik Prince sentava-se com pelo menos quatro membros do Comitê do Senado para os Serviços Armados (Senate Armed Services Committee), entre os quais se encontrava o presidente desta comissão, John Warner. Esta reunião surgiu após uma série de anteriores contatos frente a frente que Prince promoveu com poderosos representantes republicanos que tinham estado na supervisão dos contratos militares, entre os quais DeLay; Porter Gross, presidente da Comissão da Inteligência da Câmara (House Intelligence Committee) e futuro diretor da CIA; Duncan Hunter, presidente da Comissão da Câmara para os Serviços Armados (House Armed Services Committee); e Bill Young, presidente da Comissão Orçamentária da Câmara (House Appropriations Committee). O que se discutiu nessas reuniões permanece secreto, mas a Blackwater posicionava-se claramente a fim de obter o máximo da sua nova fama. De fato, dois meses depois destes contatos, a Blackwater obteve do governo um dos maiores contratos de segurança internacional, avaliado em mais de 300 milhões de dólares.

Além disso, a empresa estava igualmente muito interessada em ter um papel determinante na configuração das regras que iriam regular os mercenários contratados pelos EUA. “Devido aos acontecimentos públicos de 31 de Março, a necessidade da Blackwater de ter alguma visibilidade e de transmitir uma mensagem consistente aqui em Washington, aumentou”, comentou o novo enviado da Blackwater, Chris Bertelli. “Existem agora vários regulamentos federais que se aplicam às suas atividades, embora sejam de natureza muito geral. Falta criar um modelo padrão para este setor, e é precisamente nisto que na realidade queremos participar”. No mês de Maio seguinte, a Blackwater liderava já um grande esforço de pressão política da indústria militar privada para conseguir travar as iniciativas do Congresso e do Pentágono, que visavam colocar as suas forças sob a lei marcial do sistema judicial militar.

Mas enquanto a Blackwater gozava do seu novo estatuto de herói na “guerra contra o terrorismo”, tanto na administração Bush como no Congresso controlado pelos republicanos, as famílias dos quatro homens mortos em Faluja afirmavam que estavam impedidas pela Blackwater de tentar esclarecer as circunstâncias em que morreram os seus familiares. Depois do que descreveram como sendo meses de esforços para receber uma resposta direta da empresa, em Janeiro de 2005, as famílias apresentaram uma denúncia por “morte injustificada” contra a Blackwater, acusando a empresa de não fornecer aos seus homens aquilo que diziam ser “condições de segurança contratuais”. Do conjunto das acusações afirmava-se que naquele dia a empresa enviou-os numa missão a Faluja com menos dois homens, com pior armamento do que deviam ter, e em jeeps Pajero ao invés de veículos blindados. Este caso poderá ter amplas repercussões, razão pela qual está a ser seguido de perto pelo setor das empresas contratadas de guerra – uma antiga subsidiária da Halliburton, a KBR, apresentou inclusive um ” amicus brief ” (uma alegação a favor de uma das partes), apoiando a Blackwater. Se a acusação tiver êxito, poderá abrir caminho a um cenário equivalente ao das denúncias sobre a indústria tabaqueira, em que as empresas contratadas de guerra ficarão sujeitas a acusações judiciais dos seus trabalhadores feridos ou mortos em zonas de guerra.

Estes são apenas alguns fatos, dentre centenas, que o jornalista Jeremy Scahill relata corajosamente em seu livro.

Texto escrito por Orlando Maretti em NovaE.inf.br /  Blackwater ou a terceirização da guerra – NovaE – Nova Consciência e Cibercultura. Link  http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=1407%20CC 

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