DIÁRIO DE GUERRA – A FEB EM QUADRINHOS

Diário de Guerra n. 1 estréia com a HQ chamada “Mêdo” (na época ainda se grafava o acento circunflexo), escrita por Paroche e ilustrada pelo grande Rodolfo Zalla, argentino de alma brasileira. Retratando a situação de alguns pracinhas da FEB, fala exatamente daquele sentimento, ou daqueles sentimentos que mais afligem os soldados de qualquer nação: quando a covardia e a coragem se confundem, as conseqüências podem ser trágicas. É também da dupla Paroche-Zalla a segunda história deste primeiro número, “Claudia”, uma fascinante love story nos campos de batalha italianos. Um pracinha se apaixona por uma jovem italiana que tivera o rosto deformado por soldados alemães (e que ainda haviam matado seu pai). A feiúra na face da moça não impede o amor devotado pelo soldado brasileiro. De volta ao combate, ele tem chance de se vingar dos algozes de Claudia, mas ao retornar para a cidade onde a encontrara, receberá uma péssima notícia. Completa esta primeira edição deDiário de Guerra “Uma Nova Esperança”, que não fala sobre a FEB, mas um relato banal sobre confrontos entre americanos e chineses… mas não seriam coreanos, não? Huum… escrita e desenhada por Osvaldo Talo (que, assim como Zalla, é um argentino apaixonado pelo Brasil), se o roteiro parece pouco inspirado, seus desenhos dinâmicos muito valorizam a HQ.

Diário de Guerra # 8 traz linda capa do grande Sérgio Lima (profícuo ilustrador que na GEP ficou conhecido por seu traço em Lobisomem e também na revista da Múmia, ilustrando roteiros de Gedeone Malagola), e abre com “Fim-De-Semana No Front”, outra escrita por Milton Mattos e ilustrada por Edno & Edmundo Rodrigues. Dois pracinhas, Tião Pretinho eMangueira, querem aproveitar uma pequena folga entre uma batalha e outra e tentar descolar algumas gatinhas na cidade de Nápoles (famosa por suas belas e jovens mulheres), mas a guerra não dá trégua e os dois combatentes, ambos tidos como “alterados” (indisciplinados) por oficiais & colegas, mostram muita coragem na hora do “vamos-ver”. Uma chance para o roteirista Mattos abordar outros assuntos como racismo, malandragem, religiosidade e amizade. Paroche-Zalla retornam com tudo em “À Sangue Frio”, história violentíssima que acaba comovendo até mesmo o lado inimigo – uma boa chance para mostrar aos leitores um fato histórico comprovado por autores como Hélio Silva e César Maximiano, e desconhecido da maioria das pessoas: a dignidade dos soldados alemães em combate. Maxiamiano comprova, em seu livro sobre os pracinhas da FEB, Onde Estão Nossos Heróis, que nos diversos campos de batalha por toda a Itália eram encontradas lápides improvisadas, grafadas em alemão, homenageando o guerreiro inimigo morto em combate – os soldados brasileiros, por seu lado, faziam o mesmo sempre que tinham oportunidade de enterrar algum “bosche” (o respeito mútuo que existia entre os combatentes brasileiros e alemães é algo que merece mesmo maior estudo dos historiadores). Encerra esta outra notável edição de Diário de Guerra mais uma do trio Mattos-Edno & Edmundo Rodrigues: “Homens Contra Tanques”, muito mais do que mostrar atos de heroísmo dos pracinhas, toca num outro assunto que foi muito marcante durante a participação brasileira, especialmente nos primeiros meses de recrutamento: as rusgas entre eles próprios, tão diferentes eram entre si os soldados convocados para a guerra. Nesta história, Maritaca e Bahia, dois pracinhas do Regimento Sampaio, trocam tantas ofensas que o sargento não agüenta e manda os dois resolveram a coisa no muque. Exaustos de tanto trocar porrada, ambos finalmente vêem-se obrigados a ajudar-se mutuamente quando são atacados por tanques alemães. Resolvida a parada com os blindados, ainda restavam as velhas rusgas a se acertar.

Diário de Guerra # 7 traz belíssima capa de Rubens Cordeiro, e começa com “O Grande Covarde”, escrita por Milton Mattos e desenhada pelos irmãos Edno e Edmundo Rodrigues (o notável autor de Jerônimo Herói do Sertão, entre tantos outros personagens em Quadrinhos). No confronto com os alemães, um soldado da FEB angariava forte antipatia dos oficiais e dos colegas, pois se mostrava como um fervoroso cristão e por isso se recusava a tirar a vida de outrem. Ganhou o apelido de “Bíblia”, pois vivia citando os versículos sagrados aos companheiros, mesmo diante de fogo cerrado. Mas, quando a “cobra vai fumar” (o lema dos combatentes em ação), “Bíblia” surpreende pela impetuosa coragem – e sempre agindo como deve agir um bom cristão. Os irmãos Rodrigues se destacam por mostrar nas HQs um estilo que se assemelha ao do mestre Joe Kubert. Segue o número 7 com memorável HQ escrita e desenhada por Rodolfo Zalla, chamada “O Equilibrista”, que aborda um tema comum à FEB: a diversidade dos pracinhas, não só regionais mas também nos ofícios & profissões dos soldados que formavam as tropas. Aqui, um telefonista e um equilibrista de circo é quem vão tentar resolver a parada, cortando fios que eram essenciais para as comunicações entre os inimigos. Esta HQ foi republicada anos depois, já na década de 1980, num gibizão da Editora Ninja de Fernando Mendes, Pelotão Suicida (que é, a propósito, o nome de outro gibi de guerra contemporâneo do Diário de Guerra, mas lançado por outra editora, a Jotaesse).

Diário de Guerra # 10 decepciona a quem leu os números anteriores, talvez por dedicar muito menos páginas às aventuras da FEB. De qualquer forma, “O Corsário”, de Rodolfo Zalla, tem argumento interessante: durante as batalhas navais entre ingleses e alemães, um oficial britânico acaba prisioneiros dos inimigos germânicos, sendo que o capitão destes era ninguém menos que seu genro – que, por sua vez, dispensa ao sogro um tratamento deveras humanitário. Outro mérito de Zalla nesta HQ foi o de ter conseguido produzir trama de guerra com muito suspense, e nenhuma cena de violência explícita. É também de Zalla a segunda HQ desta edição, “Desembarque”, três páginas narrando sobre soldados canadenses durante um desembarque num explosivo litoral. Termina com outra do trio Mattos & irmãos Rodrigues: “O Soldado Perdido” – perdido mas não sem coragem, afinal, tantos eram os soldados que lutavam contra o nazismo, a favor da fraternidade, da tolerância e da liberdade, promovendo, com o sangue e com a vida, a esperança de um mundo melhor.

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