Jugoslávia, a primeira guerra da globalização

BOMBAS PARA A PAZ 

Durante o Inverno de 1997-1998, o UÇK anunciou o início da batalha pela unificação do Kosovo com a Albânia, intensificando os seus ataques contra polícias e civis. Perante a imprensa em Priština, e depois em Belgrado, em 23 de Fevereiro de 1998, o representante dos Estados Unidos para a antiga Jugoslávia, Robert Gelbard, declarou que o UÇK era “um grupo terrorista sem qualquer dúvida” e “condenou fortemente” as actividades terroristas no Kosovo. Quatro dias depois, o UÇK matou quatro polícias numa emboscada. Então Belgrado começou a fazer aquilo que o governo dos Estados Unidos teria feito em caso semelhante: esmagar sem piedade os insurrectos “terroristas”. 

Durante o Verão de 1998, as forças de segurança sérvias prosseguiram operações clássicas de contra-insurreição, visando retomar o território ocupado pelo UÇK. Washington distanciou-se progressivamente da descrição feita por Gelbard do UÇK como um “grupo terrorista”. Numa conferência de imprensa no Pentágono, em 29 de Junho de 1998, um porta-voz explicou que “a secretária de Estado determina um procedimento especial quando uma organização é ‘organização terrorista’. Essa determinação não foi feita no caso do UÇK, é tudo”. Só Madeleine Albright tinha o poder de definir a natureza do UÇK. 

Mapa Jugoslávia.

Conduzido pelos Estados Unidos e pela Alemanha, o Grupo de Contacto publicou condenações de Belgrado e renovou as sanções contra a Jugoslávia. Esta intervenção das grandes potências continuava obscura nos seus objectivos e contraditória nas suas acções. As potências da NATO reiteravam que o Kosovo devia continuar a ser parte da Jugoslávia… mas acusavam apenas Belgrado quando os albaneses se recusavam a negociar, insistindo em que só discutiriam a independência. Sobre a questão política fundamental — o estatuto do Kosovo — as potências da NATO aceitavam a posição de Belgrado, enquanto a condenavam pelo excessivo uso da força… o que viria a ser o pretexto para a NATO utilizar uma força ainda mais excessiva para atingir o objectivo contrário: a separação de facto do Kosovo da Jugoslávia.

A análise das particularidades históricas e políticas do conflito do Kosovo tendia a ser substituída pela analogia com a Bósnia, entendida como oferecendo um “padrão” de comportamento sérvio que, sem intervenção da “comunidade internacional”, seria repetido no Kosovo. Sem avaliar as injustiças, os erros e os temores de todos os lados, era mais fácil explicar tudo pela noção simplista de um “pérfido ditador”, sedento de sangue, que aproveitaria todas as ocasiões para matar a seu bel-prazer. Era a época da moda dos “assassinos em série”.

Quase ninguém reparou que os Estados Unidos eram “bombardeiros em série”. A cada crise internacional, há sempre entusiastas da aviação militar que vêem nela uma oportunidade para fazer a demonstração da superioridade dos Estados Unidos nesse domínio. Em 1995, a administração Clinton apressou-se a bombardear os sérvios da Bósnia, em parte para assegurar o controlo das negociações. Nessa época Richard Holbrooke sabia bem, como sublinha muitas vezes no seu livro To End a War, que Miloševic queria a todo o custo fazer a paz na Bósnia-Herzegovina para pôr fim às sanções que estrangulavam a Sérvia. Era Izetbegovic quem queria continuar a guerra [58] .

A justificação para o bombardeamento desejado por Holbrooke chegou mesmo a tempo, em 28 de Agosto de 1995, coincidindo com a sua chegada a Paris para se encontrar com Izetbegovic e Muhamed Sacirbey. Uma horrível explosão no centro de Sarajevo despedaçou dezenas de transeuntes. Do seu quartel-general em Pale, os sérvios acusaram os muçulmanos de terem feito o massacre para obterem a intervenção da NATO. Alguns especialistas militares britânicos suspeitavam da mesma coisa, e o secretário-geral das Nações Unidas, Boutros Boutros-Ghali, pediu um inquérito. “Tudo isso não tinha qualquer importância”, segundo Holbrooke. “O que contava era a possibilidade de os Estados Unidos agirem de maneira decisiva e persuadirem os seus aliados a participarem no tipo de campanha aérea maciça de que tantas vezes tínhamos falado…” [59]

Esse bombardeamento foi a base da mentira segundo a qual “são necessárias as bombas para levar Miloševic à mesa das negociações”. Estaria mais perto da verdade dizer que eram necessárias bombas para levar Izetbegovic à mesa das negociações. Mas a ideia de que só um bom bombardeamento poderia fazer avançar a paz visava justificar a primeira ordem de activação da NATO em 13 de Outubro de 1998. Na véspera dessa ordem, Miloševic aceitou o cessar-fogo unilateral imposto por Richard Holbrooke. A sua atitude conciliatória não fez mais do que confirmar a eficácia das ameaças militares aos olhos daqueles que, como Madeleine Albright, olhavam a Jugoslávia principalmente como uma oportunidade para fazer a demonstração do poderio militar dos Estados Unidos.

No acordo de Outubro, Miloševic aceitou reduzir as forças no Kosovo para 20 mil homens e conceder livre acesso ao Kosovo a 2000 “verificadores” da OSCE para vigiarem a aplicação da trégua. Miloševic poderia razoavelmente esperar uma certa compensação, a saber, que a OSCE e os americanos refreassem as operações ofensivas do UÇK. O facto de isso não ter acontecido obrigou Belgrado a defender-se com as forças deixadas no local [60] .

Se o UÇK fosse neutralizado, Rugova e outros dirigentes albaneses reconhecidos poderiam ousar entrar em negociações para procurar uma solução de compromisso, conforme com a política declarada dos Estados Unidos: uma ampla autonomia sem secessão. Mas nesse preciso momento os Estados Unidos tornaram impossível qualquer solução negociada ao apoiarem, mais ou menos abertamente, a luta armada do UÇK.

Ainda antes da criação oficial pela OSCE da Missão de Verificação no Kosovo (MVK), os Estados Unidos tinham persuadido o ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, Bronislaw Geremek, que nesse momento ocupava a presidência rotativa da OSCE, a nomear um diplomata americano para a dirigir. E não um qualquer: o escolhido por Washington, William Walker, tinha dado as suas provas na gestão violenta das “repúblicas das bananas” da América Central. Os europeus queixaram-se em privado dessa ausência de consulta, mas deixaram passar [61] .

A “catástrofe humanitária”, anunciada como consequência inevitável das operações de repressão sérvias, não se verificou. Os civis que tinham fugido das aldeias para escaparem aos combates regressaram. Como confirmou mais tarde o general alemão Klaus Naumann, que tinha participado no ultimato de Holbrooke, Miloševic “fez na verdade aquilo que lhe tínhamos pedido”. Cumpriu a sua promessa de retirar o grosso das suas forças, e além disso, no espaço de 48 horas, tinha confinado cerca de 6000 polícias e soldados aos seus quartéis, constatou a MVK. Mas ainda mal os sérvios tinham obedecido e já o UÇK, aproveitando a situação, avançava, tomando posições ofensivas e provocando os sérvios para que violassem o cessar-fogo. O comandante do UÇK, Agim Çeku, recordou mais tarde: “O cessar-fogo foi-nos muito útil. Ele permitiu organizar-nos, consolidar-nos e aumentar as nossas forças.” [62]

Os “verificadores” chegaram a conta-gotas em fins do Outono de 1998. A maioria deles era emprestada pelos serviços de informações ou militares. No princípio de Novembro havia no local apenas 200 dos 2000 previstos, e 150 deles eram mercenários modernos empregados pela empresa DynCorp, com sede na Virgínia, nas proximidades do Pentágono e da CIA, uma empresa privada de antigos oficiais que trabalham sob contrato para o governo dos Estados Unidos [63] . Os europeus da MVK puderam observar que Walker e o seu adjunto britânico, o general John Drewienkiewicz, encarregado da segurança, “cultivavam relações privilegiadas com as facções do UÇK” [64] . Os anglo-americanos bloquearam qualquer cooperação com a polícia sérvia, informando-se unicamente junto do pessoal albanês próximo do UÇK. Segundo os verificadores europeus e canadianos, quem apresentasse um relatório sobre violações dos direitos humanos por parte do UÇK podia contar com ameaças de morte. Para se orientarem nesta pequena província, os verificadores foram equipados com aparelhos do sistema americano GPS ( geographic positioning system ), capazes de fixar as coordenadas geográficas dos quartéis, dos arsenais, das esquadras e de outros alvos potenciais dos bombardeamentos da NATO. Afirmou um verificador suíço: “Compreendemos desde o início que as informações recolhidas pelas patrulhas da OSCE durante a nossa missão eram destinadas a completar as informações que a NATO tinha já reunido por satélite. Tínhamos a forte impressão de estar a fazer espionagem para a Aliança Atlântica.” [65]

Pelo fim do ano, crescia o descontentamento com os métodos de Walker e de Drewienkiewicz e o desprezo destes pelos outros cinco países representados na missão. O facto de só o lado sérvio ter sido obrigado a aceitar o cessar-fogo e de, por conseguinte, ser tecnicamente o único em condições de violá-lo, equivalia a convidar abertamente o UÇK a uma escalada das hostilidades e a provocar represálias sérvias. O chefe-adjunto francês da MVK, embaixador Gabriel Keller, queixou-se de que “cada retirada do exército jugoslavo ou da polícia sérvia era seguida de um avanço das forças do UÇK”. O UÇK aproveitou-se da contenção sérvia “para consolidar as suas posições em toda a parte, continuando a fazer entrar armas da Albânia, raptando e assassinando civis e pessoal militar, albaneses e sérvios”. Em privado, Keller exprimiu a sua convicção de que Walker tinha sabotado deliberadamente a missão e de que a sua única obsessão tinha sido “manter o UÇK para os americanos” [66] . Um ano depois, tarde de mais para influenciar os acontecimentos, disse-se abertamente que a MVK era uma “frente da CIA” que tinha explorado e destruído aquilo que poderia ter sido uma missão de paz, para, pelo contrário, levar o UÇK a combater os sérvios [67] .

RACAK: CASUS BELLI PARA A NATO 

Em Janeiro de 1999, o UÇK intensificou os seus ataques. Na manhã de 15 de Janeiro, a polícia sérvia cercou a aldeia de Racak em perseguição de combatentes do UÇK que acabavam de matar cinco guardas e dois civis albaneses numa emboscada nas redondezas. As autoridades informaram a MVK da operação, convidando os observadores a acompanhá-la. A operação foi filmada por uma equipa local de televisão da Associated Press. Nessa noite, um comunicado do Ministério do Interior sérvio anunciou que a operação tinha conseguido matar “várias dezenas de terroristas”.

No entanto, o UÇK reocupou rapidamente a aldeia.

No dia seguinte, acompanhado por meios de informação ocidentais e albaneses, Walker deixou-se guiar pelos homens do UÇK até uma ravina perto da aldeia, onde estavam amontoados uns vinte cadáveres. Diante das câmaras, Walker depressa interpretou os “rostos dilacerados” como prova de uma “execução à queima-roupa”, “um massacre, um crime contra a humanidade”, cometidos por “pessoas para as quais a vida humana não tem valor” — quer dizer, pelos sérvios. Aparentemente muito emocionado, o embaixador Walker declarava-se sem palavras “para descrever a minha indignação à vista daquilo que se pode descrever como uma atrocidade inominável”. E acrescentou: “Já estive noutras zonas de guerra e vi alguns actos bastante horrendos, mas isto ultrapassa tudo aquilo que vi antes.”

E Walker tinha sem dúvida visto muita coisa. A sua experiência “noutras zonas de guerra” fora adquirida na América Central, onde os “actos bastante horrendos” tinham sido cometidos sobretudo pelas forças que ele próprio apoiava em nome do seu governo. As suas missões no Salvador e nas Honduras nos anos 70 e 80 envolveram-no na criação de uma operação “humanitária” simulada para servir de cobertura ao tráfico de armas e de material para os mercenários “Contras” que semeavam o terror na Nicarágua, para desestabilizar o governo sandinista. (Por uma curiosa coincidência, um telegrama da Agência France Presse de 18 de Janeiro de 1999 informava que um filho de Walker trabalhava para uma organização não governamental no Kosovo.) Walker ajudava o exército das Honduras na época em que este criou esquadrões da morte e fez “desaparecer” cerca de 200 estudantes e sindicalistas de esquerda [68] . Na madrugada de 16 de Novembro de 1989, num momento em que Walker era embaixador dos Estados Unidos em Salvador, os homens do sinistro “batalhão Atlacatl”, cujos oficiais eram na sua maioria diplomados pela conhecida School of the Americas (viveiro americano dos militares que grassavam pela América Latina), entraram num dormitório da Universidade da América Central, tiraram seis padres jesuítas das suas camas e fuzilaram-nos à queima-roupa antes de assassinarem da mesma maneira a cozinheira e a sua filha de 15 anos. O embaixador Walker deu imediatamente mostras de compaixão… pelo comandante dos assassinos, o chefe de Estado-Maior, coronel Rene Emilio Ponce. “Em semelhante situação existem problemas de gestão do controlo”, observou ele. Sem aprovar, o embaixador sublinhou que “em tempos como estes, de grande emoção e grande cólera, coisas como estas acontecem”.

Depois dos seus longos anos de serviço na coutada de Washington, Walker partilhou a sua experiência com os estudantes da National Defense University, antes de receber a sua primeira missão na Europa, em 1996, como administrador transitório para a missão de manutenção da paz da ONU na Eslavónia oriental, que transferiu para a Croácia o território ocupado pelos sérvios. O menos que se pode dizer é que a folha de serviços do senhor Walker não parece adequar-se a contribuir para a paz e a reconciliação numa zona particularmente sensível.

A descrição feita por Walker do incidente de Racak foi rejeitada com indignação pelas autoridades sérvias. O presidente sérvio, Milan Milutinovic, acusou Walker de uma “série de mentiras e invenções” visando “afastar as atenções do terroristas, dos assassinos e dos raptores e protegê-los tal como os tem protegido constantemente”. O presidente sérvio denunciou a recusa de Walker de reconhecer a ilegalidade dos actos terroristas do UÇK, que tinha provocado a polícia, obrigando-a a defender-se. Esses protestos foram totalmente ignorados pelos políticos e pelos meios de informação ocidentais, que davam grande eco às acusações de Walker. O conflito do Kosovo era reduzido à perseguição gratuita de civis albaneses inocentes e indefesos, entregues às forças sádicas dos sérvios enfurecidos. Na sua versão maniqueísta, assinada por Walker, “Racak” tornou-se o casus belli de que a NATO necessitava para lançar os seus bombardeiros contra a Jugoslávia. A estratégia de provocação do UÇK tinha resultado — graças à ajuda dos americanos.

Por que razão, interrogaram-se alguns observadores, em vez de ir pedir explicações às autoridades sérvias próximas, se fechou Walker durante meia hora com os chefes do UÇK de Racak? Mais tarde, Walker negou ter consultado responsáveis americanos por telemóvel. No entanto, o comandante da NATO, Wesley Clark, e Richard Holbrooke declararam ambos que Walker lhes tinha telefonado de Racak.

No dia seguinte à muito mediatizada “descoberta” de Walker, o Conselho da NATO reuniu-se de emergência para ameaçar lançar os ataques aéreos e para declarar que os acontecimentos de Racak “representam uma violação flagrante do direito internacional”. Algumas semanas depois, em vésperas dos bombardeamentos da NATO, o presidente Clinton declarou: “Devemos recordar o que se passou na aldeia de Racak em Janeiro, os homens, mulheres e crianças levados de suas casas até à ravina, obrigados a ajoelhar-se na lama, crivados de balas — não por alguma coisa que tivessem feito, mas por serem o que eram.” Joschka Fischer declarou que “Racak foi para mim uma viragem”, o acontecimento que justificava a intervenção militar fora da zona de defesa da NATO.

A “viragem” de Racak conduziu directamente às pseudo-“negociações” de Rambouillet, ocasião de um ultimato de Washington que visava justificar a campanha militar da NATO contra a Jugoslávia.

As acusações de Walker conseguiram justificar a guerra, apesar de muitos membros da MVK não estarem nada de acordo com a maneira espectacular e tendenciosa como ele havia tratado o acontecimento. A MVK sabia perfeitamente que Racak era uma base do UÇK. Situada a uns quinhentos metros a sul da cidade-encruzilhada de Stimlje, não longe do futuro “Camp Blondsteel”, Racak estava rodeada de trincheiras, típicas das aldeias transformadas em fortalezas pelo UÇK. As autoridades acreditavam que aquela aldeia abrigava as unidades do UÇK que recentemente tinham feito emboscadas, raptos e assassínios nas redondezas. Alguns sérvios raptados nas proximidades durante o Verão de 1998 nunca tinham sido encontrados.

Mapa Kosovo.

As vítimas não eram apenas sérvias. Em Dezembro de 1998 e Janeiro de 1999, o UÇK “prendeu” dezassete albaneses acusados de delitos tais como “relações de amizade com os sérvios”. Segundo um relatório da MVK, o UÇK aproveitou os funerais celebrados para onze das vítimas de Racak, que tinham atraído Walker, os meios de informação internacionais e milhares de albaneses, para raptar nove albaneses acusados de crimes como ter um irmão que trabalhava para a polícia; ser suspeito de ter armas; ter bebido com sérvios; ter amigos sérvios…

Em 8 de Janeiro de 1999, uma emboscada armada pelo UÇK atacara veículos da polícia, matando três agentes e ferindo outro, bem como três albaneses que passavam de táxi. “A emboscada foi bem preparada: havia uma posição de tiro camuflada para 15 homens, que tinha sido ocupada havia vários dias, e dispararam sobre a coluna da polícia com armas ligeiras, metralhadoras e granadas propulsionadas por foguete”, segundo o relatório da MKV. Em 10 de Janeiro, mais um polícia foi morto numa emboscada a sul de Stimlje. Foi nessa altura que a polícia sérvia decidiu preparar a sua operação contra a base do UÇK em Racak.

Todas as polícias do mundo têm tendência para se zangar contra aqueles que matam colegas seus. É razoável supor que polícias sérvios, se cercavam os homens que consideravam responsáveis por terem assassinado os seus colegas, não tivessem hesitado em abatê-los sem piedade. E mesmo que os tenham morto durante um combate, poder-se-ia chamar ao incidente um “massacre”. Mas a questão pertinente é antes: tratou-se ou não de um “massacre de civis” cometido a sangue-frio, mortos unicamente por causa da sua identidade étnica, no quadro de uma campanha de “limpeza étnica”? Porque afinal de contas foi essa interpretação que foi utilizada para justificar os bombardeamentos da NATO.

Desde o princípio havia razões para cepticismo. Em 20 de Janeiro, Le Figaro Le Monde publicaram telegramas dos seus correspondentes no local que suscitavam algumas questões às quais nunca se deu resposta satisfatória [69] . O correspondente do Le Figaro, Renaud Girard, perguntava o que se tinha passado na realidade. Durante a noite, o UÇK não poderia ter reunido os corpos daqueles que tinham sido mortos por balas sérvias, para criar a impressão de uma execução cometida a sangue-frio? “De um modo inteligente, o UÇK procurou transformar assim uma derrota militar numa vitória política?”

Os únicos princípios de resposta científica foram fornecidos por exames médico-legais realizados nos 40 cadáveres recuperados pelas autoridades sérvias três dias depois do acontecimento. (Os corpos de cinco dos 45 mortos anunciados foram retidos pelos albaneses e não puderam ser examinados.) Uma equipa médico-legal da Bielorrússia juntou-se aos peritos sérvios para os primeiros exames, seguida por uma equipa finlandesa já contratada pela União Europeia para investigar as acusações de massacres no Kosovo. Os primeiros resultados estavam disponíveis no fim de Janeiro. Mas a equipa finlandesa, a única que o Ocidente se dignava levar a sério, persistia em adiar para mais tarde o anúncio dos seus resultados, apesar da urgência da questão. Os meios de informação ocidentais passaram completamente em silêncio os resultados bielorrussos e sérvios, que no entanto foram largamente confirmados pelos dos finlandeses, revelados num artigo especializado alguns anos mais tarde.

Só em 17 de Março, quando a segunda “negociação de Rambouillet” se dirigia para o inevitável impasse que havia de justificar a guerra, é que vinte e um quilos de exames sem síntese acompanhados por três mil fotografias foram entregues ao governo alemão, que assegurava a presidência da UE e que não revelou nada. O público e os meios de informação só tiveram acesso a uma “impressão pessoal” redigida pela Drª Helena Ranta, dentista, que presidia à equipa finlandesa (cujo membro mais qualificado para esse género de trabalho, o Dr. Antti Penttilä, se mantinha discreto).

Na sua conferência de imprensa de 17 de Março em Priština, a Drª Ranta dava a impressão de estar nervosa, e sob a influência de Walker. Pressionada pelos jornalistas a qualificar o acontecimento de Racak como “massacre”, ela esquivou-se, depois concedeu que se tratava de um “crime contra a humanidade”, apressando-se a acrescentar que, do seu ponto de vista, qualquer morte de homem era um crime contra a humanidade. Vários telegramas captaram as palavras “crime contra a humanidade”, sem qualificação.

As redacções não precisavam das palavras da Drª Ranta para tirarem as suas conclusões. Já na manhã de 17, antes da conferência de imprensa de Priština, o The Washington Post, num telegrama de Roma, anunciou que os peritos qualificavam as mortes de Racak de “massacre” perpetrado pelos sérvios [70] . Citando “fontes ocidentais informadas do relatório” e “responsáveis ocidentais”, todos não identificados, o The Washington Post afirmou que a equipa finlandesa tinha concluído “que as vítimas eram civis desarmados executados num massacre organizado, tendo alguns sido obrigados a ajoelharem-se antes de serem crivados de balas”. Retomado por numerosos jornais americanos, esse artigo, que mostra todas as características de uma desinformação armada pela CIA, teve certamente um impacto maior do que as tímidas declarações da Drª Ranta em Priština. Podemos reconhecer nele a origem da declaração do presidente Clinton a justificar a guerra.

Quase dois anos mais tarde — sempre demasiado tarde para influenciar os acontecimentos — um pequeno resumo do relatório médico-legal finlandês ficou acessível ao público. Um certo número de pormenores técnicos das autópsias efectuadas nas vítimas de Racak foram publicados num jornal especializado [71] . Os três autores do artigo, J. Rainio, K. Lalu e A. Penttilä, sublinharam que as questões políticas e morais não eram do seu domínio. No entanto, a sua peritagem confirmou as seguintes conclusões:
— não houve “execução à queima-roupa” em Racak. Todas as vítimas, salvo talvez uma delas, tinham sido mortas por balas disparadas de longe e de direcções diferentes;
— as “mutilações inumanas” lamentadas por Walker eram literalmente inumanas: os vestígios de mordeduras provavam que elas tinham sido causadas por animais selvagens durante a noite de 15 para 16;
— falar de “homens, mulheres e crianças inocentes” era enganador, porque as vítimas eram todas homens, com excepção de uma mulher e de um adolescente. A mulher foi morta por uma única bala nas costas, disparada à distância, talvez ao fugir do combate.

Porque houvera combate. Com efeito, o chefe do UÇK tinha-se vangloriado do número de sérvios mortos naquilo que ele próprio qualificou como batalha. Mas não há nada que possa abalar a lenda do “massacre de Racak” depois de ele ter desencadeado uma guerra.

As conclusões finlandesas confirmavam as dos jugoslavos e dos bielorrussos em Janeiro de 1999. Mas no Ocidente só se acreditava nas declarações contraditórias da Drª Ranta, que esperou cinco anos para se queixar, numa entrevista, das pressões que tinha sofrido e para assinalar que um número indeterminado de polícias sérvios também tinham sido mortos em Racak em 15 de Janeiro de 1999.

Os dados materiais são compatíveis com a versão oficial de Belgrado de um ataque da polícia sérvia contra aqueles que tomava por “terroristas”. As represálias contra os presumíveis assassinos de polícias não são desconhecidas noutros países, e designadamente nos Estados Unidos. Em 19 de Abril de 1993, perto de Waco, Texas, umas 86 pessoas, entre as quais vinte crianças, foram mortas durante um assalto policial contra uma comunidade de uma seita suspeita de possuir armas ilegais. Evidentemente, nunca se falou de uma ingerência humanitária por parte da comunidade internacional.

A FARSA DE RAMBOUILLET 

O surgimento do UÇK, hostil a qualquer compromisso e disposto a assassinar qualquer “traidor” albanês que o procurasse, tornou mais difícil do que nunca qualquer tentativa para encontrar uma solução pacífica negociada. Para os americanos, que dirigiam o jogo, o simulacro de negociações que se iniciou em 2 de Fevereiro de 1999 em Rambouillet não tinha outro objectivo a não ser provar que não havia solução pacífica possível e que era preciso fazer a guerra.

Em Rambouillet, a delegação sérvia, que incluía representantes das diversas minorias étnicas do Kosovo, estava preparada para fazer concessões aos dirigentes nacionalistas albaneses mais respeitáveis, como Rugova, Fehmi Agani ou Veton Surroi. Isso foi excluído. Esses homens conhecidos foram imediatamente marginalizados a favor do chefe do UÇK, Hashim Thaqi, até então um fora-da-lei obscuro, promovido não se sabe como a chefe da delegação “kosovar”. Obrigar a delegação sérvia a lidar com um “terrorista” era contrário a qualquer prática diplomática, tal como exigir concessões sob a ameaça da força era contrário ao direito internacional. Thaqi foi rodeado de todas as atenções por James Rubin, o responsável de imprensa de Madeleine Albright, que lhe teria até proposto uma carreira no cinema. A delegação albanesa era assistida por uma equipa de conselheiros americanos de alto nível: o advogado Paul Williams, secretário de Estado adjunto para a Europa do Sudoeste na administração do presidente Bush pai, antes de fazer parte do grupo encarregado por Clinton de aplicar as sanções contra a Sérvia; Marc Weller, um investigador especilizado na causa albanesa do Kosovo na Universidade de Cambridge; e sobretudo Morton Abramowitz, eminência parda da “intervenção humanitária” e pai-fundador do International Crisis Group, financiado por governos ocidentais e por George Soros [72] . A principal tarefa desses conselheiros era persuadir os albaneses reticentes de que deviam assinar um texto que não chegava a prometer a independência do Kosovo. Foi preciso explicar-lhes que a sua assinatura era condição necessária para que a NATO bombardeasse a Jugoslávia.

Uma negociação normal teria pelo menos tomado em consideração a proposta apresentada pelo governo sérvio de assegurar ao Kosovo uma ampla autonomia, com a protecção dos direitos de todas as minorias. Nem as potências ocidentais nem os seus meios de informação deram qualquer atenção a essa proposta. Quanto à delegação albanesa, tinha apenas uma proposta: a independência total, se não hoje, dentro de três anos. Mas em Rambouillet não se tratava de favorecer ou sequer de permitir verdadeiras negociações entre as partes em conflito. Tratava-se de impor um “acordo de Rambouillet” americano, redigido principalmente pelo diplomata Christopher Hill. Esse “acordo” predeterminado foi apresentado pelos Estados Unidos como um ultimato, cujo objectivo era obrigar os sérvios a partirem e fazer a NATO entrar no Kosovo, com o consentimento dos albaneses. Esse documento comportava duas partes, civil e militar. Segundo a parte civil, o Kosovo teria a sua própria constituição, cujas disposições prevaleceriam sobre as constituições jugoslava e sérvia, assegurando uma “economia de mercado livre”. Prometia-se uma importante ajuda económica ao Kosovo, mas a Sérvia nada receberia. Não se mencionava sequer a suspensão das sanções económicas contra a Sérvia, já para não falar de qualquer ajuda aos cerca de 650 mil refugiados já existentes na Sérvia. Contrariamente ao sistema de governo parlamentar proposto pelos sérvios, o Kosovo “livre” previsto pelos americanos seria um protectorado ocidental, cujo director teria autoridade para decidir todas as medidas importantes, nomear os responsáveis e anular os resultados de eleições.

Consciente da correlação de forças, a equipa sérvia em Rambouillet exprimiu o seu desejo de aceitar esse arranjo. O impasse dizia respeito ao lado militar do ultimato. Os sérvios já tinham acolhido os observadores internacionais (a MVK) e diziam-se dispostos a aceitar uma força internacional de manutenção da paz. Por isso entendiam uma força da ONU, imparcial, e não da NATO. Mas, no último momento, os Estados Unidos introduziram novas exigências expressas numa secção chamada “Anexo B”, que daria à NATO o controlo não apenas das forças de ocupação do Kosovo mas também liberdade total de operações em toda a Jugoslávia. A NATO reclamou “o acesso livre e sem restrições” a todo o território jugoslavo, à custa dos jugoslavos, bem como imunidade a qualquer acção judicial. Isto significava que a NATO ou membros do seu pessoal seriam livres de cometer crimes ou destruir os bens com total impunidade. Seria renunciar sem condições a toda a soberania.

Mais tarde, quando por fim o público teve notícia dessas exigências, os apologistas da NATO afirmaram que os sérvios eram responsáveis pela guerra por não terem contestado abertamente essas disposições, que representariam apenas uma “posição de negociações”. No entanto, a própria Madeleine Albright, numa conferência de imprensa em 20 de Fevereiro, acusou os sérvios de serem os responsáveis pelo fracasso por terem recusado a presença de uma força da NATO. É pois evidente que a questão-chave era a ocupação pela NATO. Era neste ponto que o Ocidente podia ter aliviado a pressão se o objectivo fosse um acordo pacífico.

“As disposições militares”, observou Jan Oberg em 18 de Março, dia da assinatura pelos albaneses, “não têm nada a ver com a manutenção da paz.” O termo mais apropriado seria “prevenção da paz”. Oberg, director da Transnational Foundation for Future and Peace Studies, sediada na Suécia, que tinha feito dezenas de visitas ao Kosovo como conselheiro de Ibrahim Rugova, sublinhou que nenhum dos numerosos jornalistas, comentadores, investigadores e diplomatas que condenaram os sérvios por se recusarem a assinar se deu ao trabalho de examinar o conteúdo dos acordos. Oberg, pelo contrário, tinha-os estudado bem ao longo do processo, e tirou a conclusão de que “este documento foi adaptado para ser aceitável pelos delegados albaneses, a tal ponto que o lado jugoslavo — inicialmente disposto a aceitar as partes políticas — achou o documento modificado inaceitável”. Porquê essa alteração? “Porque o pior dos casos para a comunidade internacional seria a Jugoslávia dizer que sim e os albaneses dizerem que não”, concluiu ele.

Em Setembro de 2000, ao fazer o seu relato das negociações, James Rubin afirmou que se tinha dito aos sérvios que o anexo militar podia ser negociado. Mas contou também que quando o ministro italiano dos Negócios Estrangeiros, Lamberto Dini, sugeriu que fosse permitido às forças da ONU policiarem o acordo em vez das forças da NATO, Madeleine Albright replicou vigorosamente que “todo o objectivo é obrigar os sérvios a aceitarem a força da NATO”. O cenário, recorda Rubin, foi este: “se os sérvios e os albaneses aceitassem o acordo, a NATO aplicá-lo-ia com a participação de tropas americanas. Se os sérvios recusassem, a NATO efectuaria os ataques aéreos. Se os kosovares recusassem, tentaríamos cortar o apoio internacional para a sua rebelião”. Mas, acrescentou, “eu não ousei dizer, nem mesmo a alguns jornalistas sofisticados, que o único fracasso em Rambouillet seria uma rejeição por parte dos albaneses” [73] . Em suma, ainda que alguns governos europeus se tenham deslocado a Rambouillet na esperança de encontrar uma solução pacífica, o objectivo principal dos Estados Unidos era instalar a NATO no Kosovo.

O direito internacional proíbe explicitamente a utilização de ameaças militares nas negociações internacionais. Um tratado obtido sob tais ameaças é nulo. A recusa de aceitar acordos nessas circunstâncias é, pois, perfeitamente legítima. Mas o objectivo dos Estados Unidos era também demonstrar que a sua vontade (benfazeja, é claro) devia prevalecer contra o direito internacional.

Em 18 de Março, sob a forte pressão americana, a delegação albanesa conduzida por Hashim Thaqi assinou o chamado “Acordo de Paz de Rambouillet” — que não era um acordo, porque unilateral, nem “de paz”, porque a sua função era desencadear a guerra. Dois dias depois, Walker ordenou aos 1381 “verificadores” que abandonassem o Kosovo em direcção à Macedónia. Alguns lamentaram-no. “A situação no terreno, em vésperas dos bombardeamentos, não justificava uma intervenção militar”, testemunhou Pascal Neuffer, membro suíço da MVK. “Podíamos certamente ter continuado o nosso trabalho. E a explicação dada à imprensa, dizendo que a missão estava comprometida por ameaças sérvias, não correspondia àquilo que eu vi. Digamos que fomos evacuados porque a NATO tinha decidido bombardear.” Em 24 de Março de 1999, a NATO desencadeou a sua guerra aérea contra a Jugoslávia.

As consequências eram absolutamente previsíveis: uma vaga de refugiados, mortos, devastação. Para além das destruições materiais, uma outra consequência, igualmente desastrosa ainda que menos visível, da decisão americano-europeia de “resolver” o problema do Kosovo pela guerra foi um crescimento sem precedentes do ódio entre comunidades. Em nome dos “direitos humanos” e da “ingerência humanitária”, o ódio triunfou no Kosovo.

3. O TRIUNFO DO ÓDIO 

O facto de os albaneses terem convidado potências estrangeiras a bombardearem o seu país não podia deixar de suscitar uma cólera violenta entre os sérvios. Uma parte dessa cólera (mas muito menos do que se quis fazer crer) exprimiu-se em actos de violência contra albaneses. A decisão de Walker de retirar os observadores do Kosovo deixava os protagonistas frente a frente sob as bombas, sozinhos para se vingarem ou mentirem. A aceitação pela “comunidade internacional” da crença de que os sérvios estavam dispostos ao genocídio atiçou o ódio anti-sérvio quase paranóico de muitos albaneses. As relações entre os sérvios e os albaneses do Kosovo já eram más. A guerra da NATO tornou-as desesperadas. O principal efeito psicológico da guerra foi confirmar e reforçar o ódio albanês contra os sérvios, reconhecê-lo como legítimo e libertá-lo de qualquer entrave, qualificando desde então toda a perseguição aos sérvios como “vingança”, implicitamente merecida.

Nos primeiros dias de bombardeamentos aéreos, a atenção do mundo esteve centrada no espectáculo da vaga de refugiados albaneses, em fuga para a Albânia e a Macedónia vizinhas. No fim dos bombardeamentos, calculava-se o número total dos refugiados do Kosovo em cerca de 800 mil (de uma população de um pouco menos de dois milhões). Essa fuga, resultado previsível dos bombardeamentos, foi transformada pela propaganda de guerra em justificação desses mesmos bombardeamentos. Na ausência de observadores internacionais neutros, era impossível ao mundo exterior saber as razões precisas desse êxodo em massa — se, como afirmavam a NATO e os seus aliados albaneses, era resultado de uma vasta “limpeza étnica” planificada pelos sérvios, ou se, como afirmavam os sérvios, o UÇK tinha incitado os albaneses a fugirem para ganharem a simpatia internacional para a sua causa. Ou então, como parece mais plausível, vários factores contribuíram para pôr as pessoas em fuga. Em primeiro lugar, deve recordar-se que é perfeitamente habitual em tempo de guerra ver enormes êxodos de civis abandonarem as zonas de combate e as cidades submetidas a bombardeamentos. Milhões de civis belgas e franceses abandonaram tudo e puseram-se a caminho no início das duas guerras mundiais. Sob os bombardeamentos da NATO, centenas de milhares de jugoslavos abandonaram as principais cidades da Sérvia central (Belgrado, Niš Novi Sad…) para procurar refúgio. Tal como a maioria dos refugiados do Kosovo, a maioria eram mulheres e crianças. A agressão da NATO tinha transformado o Kosovo em terreno de ensaio de toda uma gama de armas do Pentágono: mísseis de cruzeiro, bombas guiadas por laser, bombas de fragmentação, explosivos de urânio empobrecido. Os ataques aéreos desencadearam combates violentos entre o UÇK e as forças sérvias, decididas a extirpar a “quinta coluna” que ajudava a NATO a guiar os seus ataques. O êxodo afectou sobretudo o Oeste da província, junto à fronteira com a Albânia, onde os combates eram mais duros. As forças sérvias tinham o objectivo estratégico de esvaziar a zona fronteiriça de albaneses que poderiam ajudar à infiltração de armas e de combatentes da Albânia. Noutras partes do Kosovo o êxodo foi menos importante. O Kosovo é uma pequena província que se pode atravessar de carro em cerca de duas horas. Muitos albaneses do Kosovo podiam esperar abrigar-se em casa de parentes do outro lado das fronteiras albanesa ou macedónia. Uma vez terminados os combates, podiam esperar regressar a suas casas, o que efectivamente fizeram, com uma rapidez que surpreendeu os observadores que haviam apresentado essa partida provisória como uma “deportação” trágica de um povo expulso para sempre do seus lares. Quando, em 1999, os soldados da NATO entraram no Kosovo “vazio”, foram aclamados por multidões de albaneses em todas as principais cidades.

A guerra acabou por justificar a guerra. Os objectivos declarados da guerra do Kosovo eram variáveis. A razão oficial era, no início, simplesmente obrigar Miloševic a assinar o texto de Rambouillet. Para os estrategos americanos, uma razão um pouco menos confessável mas mais imperativa era “preservar a credibilidade da NATO”. Essa era “a questão principal”, segundo Zbigniew Brzezinski, um dos conselheiros principais de Madeleine Albright [74] . Mas o espectáculo das massas de refugiados albaneses forneceu rapidamente um objectivo mais susceptível de comover o público ocidental: a necessidade de impedir a “catástrofe humanitária” em curso. Depois, quando o governo jugoslavo não capitulou como previsto, o objectivo declarado passou a ser expulsar Miloševic do poder. O método para o conseguir era fazer o povo sérvio sofrer.

Ao fim de um mês de bombardeamentos, o senador Joe Lieberman, grande amigo do lobby albano-americano, declarou: “Espero que a campanha de ataques aéreos, mesmo que não convença Miloševic a retirar as suas tropas do Kosovo, cause uma tal devastação na sua economia, coisa que ela está a fazer, arruine a tal ponto a vida do seu povo, que este se revolte para o expulsar.” [75] Ao fim de dois meses, à pergunta se sim ou não a NATO “tentava tornar a vida miserável para os sérvios comuns”, Lieberman respondeu: “Ah, sim, quero dizer que é isso que fazemos desde há dois meses. Não atacamos só alvos militares, pois de outro modo por que é que cortamos o abastecimento de água e liquidamos as centrais eléctricas, apagando as luzes? Através dos ataques aéreos procuramos quebrar a vontade do povo sérvio para ele obrigar o seu dirigente a quebrar e a ordenar às suas tropas que abandonem o Kosovo.” [76] Este senador, que seria o candidato democrata à vice-presidência dos Estados Unidos em 2000, proclamou que “os Estados Unidos da América e o exército de libertação do Kosovo representam os mesmos valores humanos, os mesmos princípios. […] Lutar pelo UÇK é a mesma coisa que lutar pelos direitos humanos e os valores americanos” [77] .

Entrevistado pela primeira vez após o início da guerra, o comandante da aviação da NATO, general Michael Short, confirmou que os bombardeamentos visavam fazer os civis sofrerem, como meio de atingir “a direcção e as pessoas que rodeiam Miloševic para as forçar a mudarem o seu comportamento”[78] .

Penso que sem electricidade para o frigorífico, sem gás para a cozinha, sem poder ir para o trabalho porque a ponte está destruída — a ponte sobre a qual se realizaram concertos de rock e onde todos estavam com um alvo sobre a cabeça. Isso tem que desaparecer às três horas da manhã.

Os bombardeamentos da infra-estrutura não eram apenas um meio para atingir a vida quotidiana dos sérvios. Eles visavam ter também um impacto político a longo prazo, destruindo a autonomia económica do país. Um alto responsável alemão explicou que as somas que seriam necessárias para reconstruir as pontes, ou muito simplesmente para dragar os detritos do Danúbio, dariam aos países ocidentais “uma influência muito grande” [79] . O país destruído seria obrigado a obedecer aos seus destruidores, os únicos capazes de financiar a reconstrução. Esse jogo cínico acabou por resultar.

Visar a população civil era uma violação flagrante do direito internacional. No entanto, um coro de comentadores acotovelava-se para explicar que o povo sérvio merecia plenamente qualquer punição que o atingisse. William Pfaff, o mais sofisticado, abandonou o cliché do “Miloševic ditador” para argumentar que, visto que os sérvios o tinham eleito e reeleito durante uma década, não era claro “por que razão se devia poupá-los ao gosto do sofrimento que eles infligiram aos seus vizinhos” [80] .

Newsweek atingiu o cume do racismo anti-sérvio com um artigo intitulado “Vingança de uma raça vítima”. “Os sérvios estão fora da Europa, habituados ao ódio, educados na piedade por si mesmos”, explicou o autor [81] . Evidentemente, semelhante povo não poderá merecer simpatia, aconteça o que acontecer. Eles queixam-se por serem bombardeados? É o seu temperamento nacional.

A propaganda da NATO procurava justificar a destruição da Jugoslávia comparando-a à Alemanha nazi e Miloševic a Hitler. Clinton declarou que o governo de Miloševic, “como o da Alemanha nazi, chegou ao poder persuadindo as pessoas a desprezarem as pessoas de uma raça ou de uma etnia determinada, e a acreditar que estas não tinham qualquer direito de viver”. Em pleno bombardeamento, Daniel Jonah Goldhagen, professor de Harvard, forneceu a justificação suprema não apenas para “um gosto pelo sofrimento” mas também para a conquista e a ocupação da Sérvia, identificando a fuga provisória dos civis do Kosovo com o Holocausto, Miloševic com Hitler e o povo sérvio com os “carrascos de boa vontade de Hitler” ( Hitler’s willing executioners, título do livro que o tornou célebre). Como a Alemanha e o Japão nos anos 40, a Sérvia nos anos 90 “conduz uma guerra imperialista brutal, procurando conquistar um território após outro, expulsando populações não desejadas, perpetrando assassínios em massa” [82] . Miloševic era um “assassino genocida”. Ele e o povo sérvio eram “tributários de uma ideologia que exige a conquista de Lebensraum “. A maioria dos sérvios “acredita fanaticamente” na justiça das acções criminosas e propôs-se eliminar a população albanesa do Kosovo, numa acção que faz lembrar o Holocausto. O único remédio era, portanto, o aplicado à Alemanha nazi: a Sérvia devia ser conquistada, “desnazificada” e reeducada pelo Ocidente.

Goldhagen afirmava que, tal como os alemães e os japoneses dos anos 40, a nação sérvia é “composta por indivíduos cujas faculdades de juízo moral estão diminuídas e que caiu num abismo moral do qual provavelmente não conseguirá sair sem ajuda num futuro próximo”. Pelo facto de ter apoiado ou tolerado “as políticas eliminacionistas” de Miloševic, os sérvios “tornaram-se legal e moralmente incompetentes para gerirem os seus próprios assuntos”. O seu país devia ser colocado em “correcção judicial” e entregue à NATO, e os sérvios “devem compreender os seus erros e deixar-se reabilitar”.

Isto era um apelo a uma cruzada ideológica, baseada na ideia de que se deve utilizar a violência para corrigir a maneira errónea de pensar de uma nação inteira. A comparação com o Holocausto é sintomática de uma transformação ideológica dos acontecimentos da Segunda Guerra Mundial (únicos, como todos os acontecimentos) em modelos de acções e de papéis que se repetem muitas vezes, permitindo à potência “boa”, os Estados Unidos, vencer de novo “o mal” pela força das armas. O mito do eterno retorno do Holocausto pode servir de pretexto para inúmeras guerras, necessárias para “reeducar” todas as populações moralmente deficientes do planeta.

Na ausência de observadores internacionais neutros, a informação quase única sobre o que se passava no Kosovo durante a guerra era fornecida por fontes albanesas próximas do UÇK. Os activistas do “Conselho para a Defesa dos Direitos Humanos e das Liberdades” albanês, financiado por Washington, eram “muitas vezes os primeiros a entrevistar os refugiados que chegavam à Macedónia”, e ajudaram o UÇK a formar a imagem do Kosovo em guerra vista pelo Ocidente [83] .

As atrocidades sérvias eram necessárias para justificar a guerra. Em 8 de Abril, o ministro da Defesa alemão, Rudolf Scharping, anunciou a descoberta de um projecto sérvio chamado Operação Potkova (“ferradura”), visando esvaziar o Kosovo da sua população albanesa. Segundo Scharping, esse plano constituía a prova de que Miloševic e o exército jugoslavo tinham planificado a expulsão de toda a população albanesa do Kosovo muito antes dos ataques da NATO. Mas esse “plano” não existia. Um ano mais tarde, o general alemão Hainz Loquai revelou que o documento em questão não correspondia à descrição dramática feita por Scharping e não era sequer um documento sérvio. Tratava-se de uma extrapolação de uma descrição geral dos movimentos militares sérvios feita aparentemente pelos serviços de informações búlgaros, que além disso precisaram que o objectivo desses movimentos era derrotar o UÇK e não expulsar a população albanesa. Os mapas que Scharping tinha apresentado para ilustrar esse “plano” provinham dos serviços alemães. Finalmente, afirmava-se que o nome desse plano sérvio era “potkova”. Mas “ferradura”, para os sérvios, diz-se “potkovica”. “Potkova” é a palavra croata [84] .

Scharping apressou-se a repetir qualquer boato que apresentasse os sérvios como monstros sanguinários. Logo em 26 de Março ele anunciou que estava em curso no Kosovo “um genocídio de base étnica”. Dois dias depois, declarou que tinha sido organizado um campo de concentração a norte de Priština onde “os professores são reunidos e fuzilados diante dos alunos”. Em 16 de Abril não hesitou em repetir as histórias mais repugnantes fornecidas pelos albaneses para denegrir os seus adversários: teriam assado o feto de uma mulher grávida antes de voltar a introduzir-lho no ventre dilacerado; teriam cortado sistematicamente os braços e as pernas das vítimas; teriam jogado futebol com as cabeças cortadas, etc. Felizmente, tudo isso era mentira.

Para os países da NATO, todo este incitamento ao ódio era apenas propaganda efémera de guerra, que depressa poderia ser esquecida. As sequelas eram mais graves para os povos implicados. Representar os sérvios como monstros sanguinários só podia atear um ódio muito mais apaixonado e duradouro: o ódio dos albaneses aos sérvios. Os albaneses mais moderados estavam desarmados diante daqueles que gritavam vingança contra todos os sérvios, incluindo velhos e crianças, quando as maiores potências, os Estados Unidos e a Alemanha, davam um eco complacente à ideia de que os sérvios eram um povo daninho, genocida.

A atitude da NATO reforçou a tendência dos albaneses para dizer e acreditar no pior. Depois de se retirar do Kosovo, a MVK encarregou-se de recolher testemunhos albaneses nos campos criados para os refugiados albaneses. O objectivo era reunir provas contra Miloševi? para o procurador do TPIJ. Os questionários fornecidos pelo Departamento de Estado americano ofereciam às pessoas interrogadas umas trinta categorias de violações dos direitos humanos para confirmar. Prometia-se aos refugiados que faziam as acusações uma confidencialidade total, “para garantir a segurança das vítimas ou das testemunhas”. Este método, já utilizado na Bósnia, incitava à delação. A tentação de inventar ou exagerar devia ser considerável. Ao acusar os sérvios de atrocidades, prestava-se o melhor serviço à NATO e ao UÇK, que se podiam mostrar reconhecidos, sem correr o risco de se ser acusado de calúnia ou falso testemunho. E mesmo quando, depois da guerra, as acusações mais atrozes se revelaram completamente inventadas, nunca foi posta em causa a credibilidade fundamental desses questionários.

A MVK não se interessava pelos refugiados não albaneses. Ela nunca tentou compreender o ponto de vista dos ciganos, por exemplo interrogando os que se encontravam também nos campos de refugiados. Os ciganos só eram encarados do ponto de vista, hostil, dos albaneses. No seu capítulo sobre os ciganos no Kosovo, o relatório da MVK designa-os pelo nome de “maxhupet” porque era essa a palavra usada pelos albaneses, apesar de o nome “maxhupet” ser “infamante” e de haver “claramente preconceito contra e uma percepção negativa dos ciganos (maxhupet) entre os albaneses do Kosovo”. Mas, acrescentava-se, visto que “quase toda a informação tinha sido fornecida pelos refugiados albaneses do Kosovo”, o termo infamante fora mantido. Pode-se perguntar: por que motivo é aceitável chamar “maxhupet” aos ciganos mas inaceitável chamar “shqiptar” aos albaneses, como eles próprios fazem?

Quando a NATO entrou no Kosovo em 9 de Junho de 1999, as forças sérvias retiraram-se e os combatentes do UÇK impuseram rapidamente a sua lei, expulsando os sérvios dos seus empregos e das suas casas. O ódio dos albaneses aos sérvios explodiu numa campanha de violência. Cerca de metade da população sérvia teve de fugir, amontoando-se em campos de refugiados da Sérvia central. Os ciganos, que no Kosovo sérvio viviam melhor do que em qualquer outra parte da região, também tinham de fugir de uma perseguição que as forças de ocupação “humanitárias” nada faziam para impedir. Numerosos velhos sérvios que tinham ficado em Priština foram expulsos ou assassinados para permitir que albaneses, por vezes recém-vindos da Albânia, se apoderassem dos seus apartamentos, por vezes para os alugarem aos humanitários internacionais. Mais de uma centena de igrejas e mosteiros ortodoxos sérvios, muitos dos quais pertenciam a um património artístico que tinha sobrevivido aos séculos de conflitos com os turcos, foram sistematicamente destruídos, com explosivos ou pelo fogo.

As potências de ocupação não ligavam. A sua atenção estava absorvida pela procura das “valas comuns”, para apoiar a acusação pelo TPIJ do presidente Miloševic e dos seus colegas nos mais altos cargos. Durante os bombardeamentos, o governo dos Estados Unidos tinha mantido a ficção do “genocídio” com uma escalada de números fantasistas. A 16 de Abril, o secretário da Defesa William Cohen, tinha falado de cerca de 100 mil albaneses desaparecidos. Em 18 de Abril, David Scheffer, representante de Madeleine Albright para “as questões dos crimes de guerra”, inquietava-se com o destino de mais de 225 mil homens cujo paradeiro se desconhecia. Em 19 de Maio, o Departamento de Estado elevou o número dos albaneses que talvez tivessem sido mortos para meio milhão. No entanto, mais de um ano de exumações dos locais assinalados não permitiu encontrar mais de 2788 corpos de pessoas, incluindo não albaneses, mortas durante a guerra de morte violenta ou natural. Por outro lado, na maior parte das vezes não se tratava de “valas comuns” mas de simples campas. Juan Lopez Palafox, chefe da equipa espanhola de medicina legal enviada ao Kosovo para examinar os corpos de 2000 vítimas presumíveis, queixou-se ao jornal El País de que no seu sector havia apenas 187. As minas de Trepca, onde, segundo fontes albanesas, os sérvios teriam lançado milhões de vítimas albanesas, revelaram-se vazias. No fim de contas, se acrescentarmos aos mortos confirmados o número de pessoas declaradas desaparecidas, o total de vítimas não pode ultrapassar muito as 5000, bem longe das estimativas alarmistas dos porta-vozes da NATO durante os bombardeamentos. Quanto às valas comuns que os sérvios indicaram conterem vítimas do UÇK, a procuradora Louise Arbour explicou que “o Tribunal não tem dinheiro para levar a cabo essas exumações”.

Enquanto a violência albanesa continuava, foi instalado um governo de ocupação chamado Missão das Nações Unidas no Kosovo (UNMIK). Podia-se contar com o seu primeiro chefe, Bernard Kouchner, para não notar nada que pusesse em questão o “direito de ingerência humanitária”. Não sabendo como deter a violência albanesa, Kouchner achava argumentos para a justificar. “A natureza humana” exigia vingança, sendo a vingança “um antídoto para o veneno que infectou esta região devastada pela guerra”, receitou o médico sem fronteiras. Para tentar amaciar os albaneses, Kouchner declarou-lhes: “amo todos os povos, mas alguns mais do que outros, e é o vosso caso” [85] . Mas o ambiente não estava para amores. “É preciso ser um pouco doido para ir ao Kosovo!”, confessou ele, acrescentando que “o que falta no Kosovo é amor” — mesmo entre albaneses. “As pessoas não gostam umas das outras. Têm laços de família e de clã, uma tradição que eu respeito…” Mas “o espírito de vingança” acabou por lhe meter medo. O Kosovo, concluiu ele, “não é um lugar afectuoso” [86] .

Kouchner não podia ignorar a implicação do UÇK na violência. Esses grupos armados pareciam operar de uma maneira organizada, com uma forma de hierarquia, de comando e de controlo, constatou ele. Mas a violência espontânea não era mais tranquilizadora. Comentando o relatório da nova equipa de observadores da OSCE, criada no início da ocupação, Kouchner assinalou que “uma das tendências mais alarmantes… [é] a participação crescente de jovens nas violações dos direitos humanos”. A OSCE tinha documentado “sucessivos casos de jovens, alguns com apenas 10 ou 12 anos, que perseguem, espancam e ameaçam sobretudo as vítimas idosas indefesas, apenas por causa da sua etnia” [87] .

Tratava-se de uma geração educada no chauvinismo albanês. A opressão sérvia dos albaneses, tantas vezes denunciada, era sobretudo uma questão de maus tratos infligidos pela polícia sérvia a homens suspeitos de infracções e não de ataques de cidadãos sérvios comuns contra os seus vizinhos albaneses. Mesmo durante os bombardeamentos houve casos de sérvios que protegeram os seus vizinhos albaneses. Depois da guerra, Veton Surroi ousou denunciar a violência contra civis sérvios como “fascismo”. Foi uma excepção. Os albaneses que quisessem defender os seus vizinhos sérvios não se atreveriam: a violência do UÇK impedia qualquer gentileza para com os sérvios. A NATO tinha liberto não o Kosovo no sentido de toda uma sociedade mas sim os reflexos de uma cultura de ódio, justificada e até exaltada pela propaganda ocidental.

Os albaneses matavam também outros albaneses, e até mais albaneses do que sérvios. Podemos ver nisso uma continuação da guerra travada pelos combatentes do UÇK para se estabelecerem como senhores da comunidade albanesa. Perante este problema, a comunidade internacional nomeou o caçador furtivo para guarda-caça. Depois de um falso “desarmamento” do UÇK, os seus homens foram recrutados para um chamado “Corpo de Protecção do Kosovo” (KPC), cuja ambiguidade se exprimia logo no seu nome. Enquanto os seus padrinhos internacionais afirmam que a “protecção” se refere à protecção contra desastres naturais, a palavra albanesa, “Mbrojtes”, significa não “protecção” mas sim “defesa”. Porque o KPC se considera o novo exército do Kosovo. O seu chefe, o antigo comandante do UÇK Agim Çeku, tinha adquirido triste notoriedade ao expulsar os sérvios da Krajina enquanto oficial do exército croata. Os salários desses protectores, alguns dos quais complementariam os seus salários com o tráfico de drogas ou de mulheres, eram pagos por um fundo especial da ONU, alimentado pelas contribuições voluntárias dos Estados Unidos e da Alemanha.

Um favorito dos anglo-americanos, próximo do lobby albanês nos Estados Unidos, Ramush Haradinaj, foi nomeado comandante-adjunto do KPC. Em 1998, quando comandava o UÇK no feudo do seu clã na região de Decani, no Oeste do Kosovo, foram aí assassinados quarenta civis. “Muitos cadáveres — sérvios, albaneses e ciganos — tinham vestígios de tortura. Os albaneses moderados da Liga Democrática do Kosovo [o partido de Rugova] acusaram Haradinaj de estar ligado aos assassínios de civis suspeitos de terem colaborado com as forças sérvias.” [88] Haradinaj era um dos comandantes do UÇK equipados com um telefone por satélite, em 1999, para guiar os ataques da NATO. Quando em Julho de 2000 ele foi ferido durante um assalto armado contra a aldeia fortificada do clã rival dos Musaj, Haradinaj foi rapidamente transferido para um hospital militar americano.

Em Março de 2000, Jiri Dienstbier, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros checo, num relatório à comissão da ONU para os direitos humanos, constatou: “Os bombardeamentos não resolveram nenhum problema. Eles apenas multiplicaram os problemas existentes e criaram outros novos.” A maior parte do Kosovo tinha sido “etnicamente limpa dos seus não albaneses, dividida, sem nenhum sistema jurídico, dominada pelas estruturas ilegais do Exército de Libertação do Kosovo [UÇK] e muitas vezes por máfias rivais”. Além disso, as forças extremistas do UÇK eram apoiadas, no seu desejo de criar a “Grande Albânia”, pelo antigo presidente Sali Berisha e outros dirigentes da Albânia. Esse relatório encontrou pouco eco na imprensa e não conseguiu influenciar a opinião pública mundial.

A guerra de 1999 deixou uma ferida aberta nos Balcãs. O nacionalismo albanês triunfante, aproveitando a protecção dos Estados Unidos, ameaça o Sul da Sérvia, a Macedónia e até uma parte do Montenegro. A guerra e o desastre económico que ela provocou entregaram a região às actividades criminosas, nomeadamente o tráfico de drogas, de armas e de mulheres. Essas actividades ameaçam mesmo aumentar o nível de violência criminosa nos países europeus da NATO.

4. A DEMOCRACIA NA NOVA ORDEM MUNDIAL 

A primeira cruzada (1096-1099) foi proclamada a partir das igrejas. A cruzada de 1999 contra os sérvios foi proclamada oficiosamente a partir do mais sagrado dos lugares de peregrinação contemporâneos, o Museu do Holocausto em Washington. A ocasião foi um discurso, a 23 de Fevereiro de 1999, de James Hooper, director executivo do Balkan Action Council, um think tank que reunia alguns dos “falcões” mais eminentes de Washington, tais como Zbigniew Brzezinski, Frank Carlucci, Jeane Kirkpatrick e Paul Wolfowitz. Hooper fora convidado pelo “Comité de Consciência” do Museu. Essa voz da consciência oficial explicou que “os Balcãs são uma região de interesse estratégico para os Estados Unidos, a nova Berlim se quiserem, o terreno de ensaio para a firmeza da NATO e a liderança dos Estados Unidos” [89] . Miloševic devia pagar pelo crime de ter “conseguido dividir” os Estados Unidos dos seus aliados. “A Administração [Clinton] deve ser franca com o povo americano e dizer-lhe que provavelmente teremos uma presença militar nos Balcãs por tempo indeterminado, ao menos até que haja um governo democrático em Belgrado.”

Assim, entre as diversas razões declaradas e não declaradas para fazer a guerra havia o desejo de escolher o governo de um país estrangeiro, a célebre “mudança de regime” que se tornou uma das novas prerrogativas do Império. A palavra “democrático” neste contexto não indica um governo eleito segundo as regras democráticas, porque o próprio Miloševic o havia sido por diversas vezes. E não bastaria fazê-lo perder uma eleição. Ele tinha de ser “derrubado por um levantamento popular”, para mostrar bem que se tratava de um “ditador”.

Mas o próprio Miloševic tinha antecipado em vários meses as eleições, que iria perder. Esperava sem dúvida ganhar, mas o castigo infligido à Jugoslávia teve finalmente o efeito esperado: um número cada vez maior de jugoslavos culpava Miloševic pelas desgraças do país, incluindo a perda de facto do Kosovo. A insistência da “comunidade internacional” em que a Jugoslávia seria um pária enquanto Miloševic aí estivesse era um importante meio de chantagem. E depois, pela primeira vez, a oposição uniu-se em volta de um candidato aceitável: Vojislav Koštunica, um jurista bastante conservador, com a reputação rara de ser patriota e honesto. Os argumentos e os dólares de Washington tinham persuadido os desavindos dirigentes dos 18 partidos da Oposição Democrática da Sérvia (DOS) a apoiar Koštunica. O embargo continuava a bloquear a importação de todos os materiais para reconstruir as pontes e as fábricas destruídas pela NATO, mas dos Estados Unidos chegava um rio de dólares para subvencionar os adversários de Miloševic. Entre os beneficiários dessa generosidade estava uma rede de jovens bastante desportivos chamada Otpor (“resistência”). Milhões de dólares de ajuda do governo americano passaram por organizações chamadas “não governamentais”, o National Endowment for Democracy — o mesmo NED que financiava os albaneses do Kosovo — e o International Republican Institute, para fornecer aos cerca de 70 mil membros da Otpor cartazes, t-shirts, desdobráveis, telemóveis, tinta em spray e dinheiro de bolso. A única perspectiva política da Otpor era ser “normal” à moda do Ocidente, um Ocidente de cinema americano. Entre 31 de Março e 3 de Abril de 2000, num hotel de luxo de Budapeste, os dirigentes dessa jovem vanguarda aprenderem “métodos de acção não violenta” com um coronel do Exército dos Estados Unidos, Robert Helvey. O manual do movimento foi escrito por um colega de Helvey, Gene Sharp, que enumera 198 métodos de acção não violenta. A chave é a provocação. As acções pretendem provocar uma repressão que vai desacreditar o regime no poder [90] . Assim, a Sérvia servia de terreno de ensaio das técnicas que visam a “mudança de regime”, que os estrategos americanos copiaram dos autênticos movimentos populares do passado para os simularem no futuro.

Graças à sua infiltração nas instâncias do poder (uma das técnicas da lista de Sharp), a Otpor conhecia antecipadamente a data das eleições. Sessenta toneladas de propaganda eleitoral estavam já preparadas. Na primeira volta, a 24 de Setembro de 2000, entre cinco candidatos, Miloševic foi segundo, depois de Koštunica, que obteve mais de 48% dos votos. A lei eleitoral sérvia exige uma segunda volta se nenhum dos candidatos obtiver 50% na primeira. Com dez pontos de avanço, Koštunica estava seguro da vitória. Mas uma pacífica vitória eleitoral não bastaria. Era preciso qualquer coisa mais dramática. A DOS declarou que o seu candidato já tinha vencido na primeira volta, que esta tinha sido “fraudulenta” e que por essa razão boicotaria a segunda volta. Em vez das urnas, os “democratas” preferiam “a rua”, uma rua bem preparada. Em 5 de Outubro, diante das câmaras de televisão, levaram à cena um espectáculo tão artificial como aquele que desembaraçou a Roménia do casal Ceaucescu, mas felizmente menos sangrento. Num simulacro de “revolução popular”, jovens tomaram de assalto a Skupština, o edifício do parlamento no centro de Belgrado, deitando-lhe fogo… que, por acaso, parece ter destruído os boletins de voto que poderiam confirmar ou negar as acusações de “fraude”.

Enquanto os “libertadores” deitavam fogo à sede da Rádio Televisão Sérvia, destruindo arquivos preciosos, as outras televisões do mundo inteiro difundiam complacentemente as cenas de vandalismo apresentando-as como a “queda de um ditador” expulso pela indignação popular.

Para realizar essa proeza, um bando de desordeiros tinha sido transportado para Belgrado da cidade de Èaèak. O presidente da câmara municipal de Èaèak, Velimir Ilic, anticomunista fanático, gabou-se de que o seu “comando” armado de 2000 homens se dirigira para a capital em 5 de Outubro para “tomar o controlo das instituições-chave”. Alguns traziam armas e coletes à prova de bala. A acção tinha sido preparada antecipadamente, disse ele orgulhosamente à AFP. Entre os seus homens encontravam-se antigos pára-quedistas, antigos oficiais do exército e da polícia, mas também antigos membros das “forças especiais” que tinham combatido nas guerras da Croácia e da Bósnia. Assim, alguns dos mesmos paramilitares que sem dúvida tinham cometido as piores violências da “limpeza étnica” atribuída aos sérvios foram instantaneamente promovidos pelos meios de informação ocidentais a heróis de uma “revolução democrática”.

Longe das câmaras, os comandos tomaram de assalto e destruíram a sede do Partido Socialista. As empresas mais lucrativas foram tomadas, os seus responsáveis espancados e expulsos. Sem qualquer ligação com o novo presidente jugoslavo, formaram-se comités de crise para redistribuir propriedades e cargos. Mais uma demonstração de que um regime “democrático” não significa que saiu das urnas, mas sim que é apoiado pela “comunidade internacional”.

Mas não é tudo. Para serem aceites pela comunidade internacional, os novos dirigentes da Jugoslávia teriam de ajudar a NATO a justificar a destruição do seu país, em primeiro lugar transferindo o seu presidente para Haia para um julgamento-espectáculo montado pela organização irmã da NATO, o TPIJ. Não bastava bombardear a Sérvia e amputar uma parte do seu território. Era preciso obrigar o povo sérvio a acreditar — ou fingir acreditar — que o merecia. Na Nova Ordem Mundial, é preciso adaptar o crime ao castigo.

NOTAS
58- Richard Holbrooke, To End a War, Nova Iorque, Random House, 1998.
59- Holbrooke, pp. 91-92, 96. Hugh McManners, “Serbs “not guilty” of massacre: Experts warned US that mortar was Bosnian”, The Sunday Times, 1 de Outubro de 1995, p. 15.
60- Timothy W. Crawford, “Pivotal deterrence and the Kosovo war: Why the Holbrooke agreement failed”, Political Science Quarterly, 22 de Dezembro de 2001, nº 4, vol. 116, p. 499.
61- General de Brigada (ret.) Heinz Loquai, conselheiro militar junto da delegação alemã na OSCE em Viena, “Die OZCE-Mission im Kosovo — eine ungenutzte Friedenschance?”, Blätter für deutsche und internazionale Politik, Setembro de 1999.
62- “Moral Combat: NATO at War”, documentário difundido pela BBC2 Television em 12 de Março de 2000.
63- Der Spiegel, 46/1998, 9 de Novembro de 1998, “Wehrlose Aufpasser”, p. 210.
64- Ulisse (pseudónimo), “Come gli Americani hanno sabotato la missione dell’Osce”, Limes, suplemento ao nº 1/99, p. 113, L’Espresso, Roma, 1999.
65- Pascal Neuffer, geólogo, citado por La Liberté, Genebra, 22 de Abril de 1999.
66- Entrevista da autora com o correspondente do Figaro, Renaud Girard, em 25 de Janeiro de 2000.
67- Tom Walker & Aidan Laverty, “CIA aided Kosovo guerrilla army”, The Sunday Times, 12 de Março de 2000.
68- Don North, “Irony at Ra?ak: Tainted Diplomat”, The Consortium, Arlington, Virginia, 8 de Fevereiro de 1999, p. 2.
69- Renaud Girard, “Kosovo: zones d’ombre sur un massacre”, Le Figaro, 20 de Janeiro de 1999, p. 3; Christophe Châtelet, “Les morts de Racak ont-ils vraiment été massacrés froidement?”, Le Monde, 21 de Janeiro de 1999, p. 2.
70- R. Jeffrey Smith, “Kosovo Attack Called a Massacre”, The Washington Post, 17 de Março de 1999, p. 1.
71- J. Rainio, K. Lalu, A. Penttilä, “Independent forensic autopsies in an armed conflict: investigation of the victims from Ra?ak, Kosovo”, Forensic Science International, 116 (2001), pp. 171-185.
72- Crónica de Anna Husarska no International Herald Tribune, 1 de Agosto de 2001.
73- James Rubin, “Countdown to a Very Personal War”, Financial Times, 30 de Setembro de 2000, e “The Promise of Freedom”, Financial Times, 7 de Outubro de 2000.
74- Tyler Marshall, “U. S. in Kosovo for the Long Haul”, Los Angeles Times, 10 de Junho de 2000.
75- “Meet the Press”, 25 de Abril de 1999.
76- Fox News (televisão), 23 de Maio de 1999.
77- The Washington Post, 28 de Abril de 1999.
78- Michael R. Gordon, “NATO General Urges Hits on Serbian Leaders; Belgrade People Must Suffer, Too, He Says”, The New York Times/International Herald Tribune, 14 de Maio de 1999.
79- “Is Serb Economy the True Target? Raids Seem Aimed at Bolstering Resistance to Miloševic”, by Joseph Fitchett, International Herald Tribune, 26 de Maio de 1999, p. 1.
80- International Herald Tribune, 31 de Maio de 1999.
81- Rod Nordland, “Vengeance of a Victim Race”, Newsweek, 12 de Abril de 1999.
82- Daniel Jonah Goldhagen, “If you rebuild it… A New Serbia”, The New Republic, 17 de Maio de 1999.
83- Daniel Pearl & Robert Block, “Despite Tales, the War in Kosovo Was Savage, but Wasn’t Genocide”, Wall Street Journal, 31 de Dezembro de 1999.
84- Heinz Loquai, Der Kosovo-Konflikt: Wege in einen vermeidbaren Krieg, The Institute for Peace Research and Security Policy of the University of Hamburg, Nomos, Baden-Baden, 2000, pp. 138-144. John Goetz & Tom Walker, “Serbian ethnic cleansing scare was a fake, says general”, The Sunday Times (Londres), 2 de Abril de 2000.
85- Bernard Kouchner, “The Long Path Toward Reconciliation in Kosovo”, Los Angeles Times/International Herald Tribune, 27 de Outubro de 1999.
86- Entrevista com Bernard Kouchner por Catherine Perron, “Kosovo: Le courage de Sisyphe”, Politique Internationale, Paris, Inverno de 1999-2000, pp. 69-90.
87- Citação do prefácio escrito por Kouchner para o segundo volume do relatório da OSCE sobre as violações dos direitos humanos, Kosovo/Kosova: As Seen, As Told. Este relatório foi redigido por uma nova missão da OSCE no Kosovo, OMIK, dirigida por um diplomata neerlandês, Daan Everts, que começou os seus inquéritos em Julho de 1999.
88- Tom Walker, “Cook held talks with war crime suspect”, The Sunday Times, Londres, 29 de Abril de 2001.
89- Anthony Lewis, The New York Times/International Herald Tribune, 12 de Abril de 1999.
90- Roger Cohen, “Who Really Brought Down Miloševic?”, The New York Times Sunday Magazine, 26 de Novembro de 2000.

[*] Jornalista, americana, residente em Paris. Trabalhou para a Agence France Presse e diversas publicações, incluindo Le Monde Diplomatique. Entre 1979 e 1989 foi correspondente europeia do semanário social-democrata de Chicago In These Times. O seu livro The Politics of Euromissiles: Europe in America’s World foi publicado pela editora Verso, Londres, 1984. De 1990 a 1996 foi adida de imprensa do Grupo Verde no Parlamento Europeu. 


Este texto é extraído do capítulo 5 (O novo modelo imperial) de Cruzada de cegos: Jugoslávia, a primeira guerra da globalização , Editorial Caminho, Lisboa, 2006, 381 pgs., ISBN 972-21-1764-5. Escrito por  Diana Johnstone , traduzido em Resistir.info


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