O plano de Defesa de Obama: Drones, Operações Especiais e Ciberguerra

O presidente Obama anunciou hoje sua visão para o futuro militar dos EUA. Deem adeus às grandes guerras de contraguerrilha. Todos a postos para mais guerra clandestina, ataques de drones e combates online, com os militares de olhos postos no Pacífico, não mais no Afeganistão.

Em rara visita ao Pentágono, o presidente Obama declarou que os EUA estarão “fortalecendo nossa presença no Pacífico Asiático” e “virando a página de uma década de guerra.” Na prática, significa cortar nos “sistemas retrógrados da Guerra Fria” (não especificou quais) e no Exército e na Marinha, como parte de amplo esforço para cortar o que o Pentágono calcula hoje em $487 bilhões em seu orçamento, ao longo de dez anos.

Mas também significa que os EUA investirão pesado em outras especialidades militares, de agora até 2020. Obama identificou-as como “inteligência, vigilância, contraterrorismo, prevenção da construção e uso de armas de destruição em massa e a capacidade para operar em ambientes aos quais o inimigo tente nos negar acesso.”

Traduzido do jargão secreto da Defesa: toneladas de ferramentas de espionagem, inclusive drones; forças letais para operações especiais; armas de ciberataque; ferramentas para despistar rastreamento e bloqueios (orig. jammers); e presença para deter e confrontar o Irã – talvez também a China, que insiste em manter a Marinha e a Força Aérea dos EUA bem longe de suas praias[1].

A coisa soa como versão requentada do projeto do Pentágono há dez anos passados, e talvez seja isso mesmo. Os militares serão “menores e mais magros, mas igualmente ágeis, flexíveis e tecnologicamente avançados”, nos termos do recém-lançado documento do Pentágono, no qual se delineia a mudança de estratégia; e preservando “capacidades de ponta, explorando nossa vantagem tecnológica, ampla e unida em rede”. Em algum lugar, Donald Rumsfeld sorriu[2].

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Mas o documento de fato não diz o que tudo isso realmente significa – por exemplo, que armas, navios, tanques, aviões e soldados estão com a cabeça sobre o cepo. Essa é a tarefa do orçamento da defesa para o próximo ano, que o Pentágono está finalizando e divulgará no início de fevereiro. Mas como o Blog “Danger Room” noticiou na 4ª-feira, a Força Aérea perderá 200 aviões e a Marinha dispensará cerca de 100 mil soldados, porque o Pentágono terá de cortar $450 bilhões do orçamento, em dez anos[3]. E o documento já divulgado pelo Pentágono também faz vaga referência a cortes no arsenal nuclear dos EUA.

As linhas de ataque da estratégia de defesa de Obama já estavam claras, antes até de a tinta secar. O Republicano Buck McKeon (R-Calif.), presidente da Comissão das Forças Armadas da Câmara de Deputados, chamou a coisa de “retirada do mundo”, marcada por “pesados cortes nas nossas forças militares”. E se a estratégia parece dieta para fazer o orçamento da defesa emagrecer $487 bilhões em dez anos, como está programado, o Pentágono perderá outros $600 bilhões, no mesmo período, que começa a contar ano que vem, a menos que o Congresso aprove acordo gigante para reduzir o déficit. Há tempo de sobra para que os militares consigam reverter o tal acordo. Mas o secretário de Defesa Leon Panetta já avisou que novos cortes “nos forçarão a cortar missões, compromissos e capacidades indispensáveis para proteger interesses vitais da segurança nacional”.

Ao longo do ano passado, o Pentágono discutiu modos para reafirmar a postura da defesa dos EUA – nem tanto porque quisesse, mas porque a iminência dos cortes obrigou o Pentágono a repensar o que fazer para defender o país por preço mais em conta. Críticos acusam o processo de ser retrógrado, estratégia movida a dinheiro, em vez de estratégia militar que orientasse o modo como o Pentágono gasta dinheiro. Afinal, na última vez que o Pentágono pensou sobre as próprias prioridades em muitos anos, a primeira resposta que apareceu foi “vencer as guerras de hoje” (.pdf[4]) Era fevereiro de 2010.

Pois a prioridade mudou. A nova estratégia “transiciona (sic) a empreitada de nossa Defesa, da ênfase nas guerras de hoje, para a preparação para desafios futuros” – diz o documento. Esses desafios “são inextricavelmente ligados aos desenvolvimentos no arco que se estende do Pacífico Ocidental e Leste da Ásia, até a região do Oceano Índico e sul da Ásia”.

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Mas o Pentágono não está pondo fim às “Guerras na Sombra” – ataques não declarados contra alvos terroristas, por drones e comandos clandestinos, no Paquistão, Iêmen, Somália e além. Mas, sutilmente, o Pentágono muda de objetivo. “No futuro que se pode antever”, diz o documento, os EUA caçarão terroristas – “monitorando atividades de ameaças que venham de entidades não estatais em todo o mundo, trabalhando com seus aliados e parceiros para estabelecer controle sobre territórios sem governo, atacando diretamente os grupos e indivíduos mais perigosos, quando necessário.”

Se isso significa alguma coisa, significa mandar a espionagem global, antes das missões para capturar e matar terroristas. Essas missões sempre exigiram inteligência, mas tudo faz pensar em programas de vigilância e espionagem de longo alcance, como os clusters de vigilância da Força Aérea do tipo “Gorgon Stare”, e a espionagem militar massiva parece estar crescendo em importância.

Nem os EUA estão dizendo que estão caindo fora do Oriente Médio. “A segurança do Golfo” será enfatizada – o que é o mesmo que dizer que a nova prioridade dos militares é conter o Irã. O que por sua vez exige “priorizar” a “presença” dos EUA e forças aliadas “na e em torno da região”. Tradução: a Força Aérea manterá a base-gigante em Al-Udeid no Qatar; e a V Frota da Marinha continuará a patrulhar o Golfo.

Mas a guerra de contraguerrilha, foco da ação do Exército dos EUA na última década, nem por isso será abolida. Oficialmente, é a nona entrada na lista de prioridades da Defesa. E mesmo aí, o documento fala, no máximo, sobre “guerra limitada de contraguerrilha”, e sabe-se lá o que isso significa, porque “as forças dos EUA não mais serão planejadas para operações de larga escala, prolongada, de estabilização”.

Apesar de os militares estarem-se mudando para o Pacífico – o que significa mais trabalho para Marinha e Força Aérea – além de espionagem com drones; forças letais para operações especiais; despistamento e bloqueios cyber e ataques cirúrgicos, o general Martin Dempsey, chefe do Comando do Estado-maior, não quer que se esqueça o Exército. Dempsey lembrou que “o documento não diz, em lugar algum, que nunca mais combateremos guerras no solo”.


[1] Em http://www.wired.com/dangerroom/2011/07/rule-sea-sky/

[2] 27/11/2007, em http://www.wired.com/politics/security/magazine/15-12/ff_futurewar?currentPage=all

[3] Em http://www.wired.com/dangerroom/2012/01/planes-cut/

[4] Em http://www.defense.gov/qdr/qdr%20as%20of%2029jan10%201600.PDF


Artigo de Spencer Ackerman

Traduzido por  Coletivo de tradutores Vila Vudu

Fonte: http://www.wired.com/dangerroom/2012/01/pentagon-asia-strategy/
Data de publicação do artigo original: 05/01/2012
URL deste artigo: http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=6554

 

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