Mesmo em tempos de “realistas” e vigilantes, ainda há razões de otimismo

Em gravações que agora começam a ser divulgadas para conhecimento público, ouvem-se Kissinger e o presidente Richard decidindo as providências para derrubar o presidente Salvador Allende. Falam como dois bandidos mafiosos. Kissinger alerta que o “efeito modelo” da democracia reformista de Allende “pode ser insidioso”. E diz ao diretor da CIA Richard Helms: “Não deixaremos que o Chile se vá pelo ralo”, ao que Helms responde: “Estou com você.” Com a carnificina já em andamento, Kissinger descarta um alerta que recebe de seus altos assessores sobre a escala da repressão. E diz secretamente a Pinochet: “Grande serviço você prestou ao ocidente!”

Conheci várias das vítimas de Pinochet e Kissinger. Sara De Witt, que era estudante na época do golpe, mostrou-me o local onde foi detida, espancada, estuprada e eletrocutada. Num dia ventoso, andamos juntos pelos subúrbios de Santiago, e visitamos um ex-centro de tortura chamado Villa Grimaldi, onde centenas como ela sofreram terrivelmente e onde muitos foram assassinados e “desaparecidos”.

É vital compreender claramente a criminalidade de Kissinger, para começar a compreender o que os EUA chamam de sua “política externa”. Kissinger ainda é voz influente em Washington,admirado e consultado por Barack Obama e Kerry.

Quando Israel, Arábia Saudita, Egito e Bahrain cometem crimes com armas e contribuição dos EUA, a impunidade dos criminosos e a hipocrisia de Obama são puro Kissinger. A Síria não pode ter armas químicas, mas Israel pode tê-las e usá-las. O Irã não pode ter programa nuclear, mas Israel pode ter mais armas nucleares que a Grã-Bretanha. A isso acadêmicos e think-tanks norte-americanos chamam de “realismo” ou realpolitik, apresentando-se como especialistas em “contraterrorismo” e “segurança nacional”, duas expressões orwellianas que significam, cada uma, o contrário da outra.

Em semanas recentes, a New Statesman tem publicado artigos assinados por John Bew, professor do departamento de estudos de guerra do Kings College ao qual Laurence Freedman, guerreiro da guerra fria deu grande fama. Bew lamenta a decisão do Parlamento britânico que impediu David Cameron de unir a Obama em ataque ilegal contra a Síria; lamenta também a hostilidade da maioria dos britânicos, que não querem ver mais britânicos bombardeando outros países. Uma nota no rodapé dos artigos informa que Bew assumirá em breve “a cátedra Henry A. Kissinger de Política Exterior e Relações Internacionais” em Washington. Se não é piada de humor macabro, é profanar a decência humana e todas as vítimas, como Sara de Witt e outras incontáveis vítimas de Kissinger, dentre milhares de outras todas as que morreran no holocausto promovido por ele e Nixon no bombardeio secreto, ilegal, do Cambodia.

Essa doutrina do “realismo” foi inventada nos EUA depois da 2ª Guerra Mundial e patrocinada pelas fundações Ford, Carnegie e Rockefeller; pela CIA; e pelo Conselho de Relações Exteriores. Nas grandes universidades, os esstudantes passaram a ser ensinados a ver povos e países em termos de utilidade ou descartabilidade; em outras palavras, em termos de ameaça contra “nós”.

Esse narcisismo serviu para justificar a guerra fria, com seus mitos de falsa moralidade e riscos cataclísmicos. Quando isso se esgotou, inventaram a “guerra ao terror”. Esse “consenso transatlântico” muitas vezes encontrou eco perfeito na Grã-Bretanha, onde a elite padece de nostalgia pelo império. Tony Blair usou-o para cometer e justificar crimes de guerra; mentiu até não mais poder. A morte violenta de mais de mil pessoas por mês, hoje, no Iraque, é seu principal legado; mesmo assim ainda é cortejado e seu principal colaborador, Alastair Campbell, é festejado conferencista de pós-jantares e atentamente consultado em entrevistas subservientes. Lavaram-se, aparentemente, de todo o sangue que os cobre dos pés à cabeça.

Hoje, o projeto deles é a Síria. Agora, contido pela Rússia e pela opinião pública, Obama parece ter adotado a “via da diplomacia”. Pode-se confiar nisso? Enquanto negociadores russos e norte-americanos chegavam a Genebra dia 12/9, no mesmo dia os EUA aumentavam seu apoio a milícias ligadas à Al-Qaeda, com armas enviadas clandestinamente pela Turquia, Europa Oriental e Golfo. O Chefão não dá sinais de interesse em abandonar seus capangas na Síria. A al-Qaeda foi criada pela CIA na Operação Cyclone que armou os mujahedin no Afeganistão ocupado pelos soviéticos. Desde então, sucessivas gerações de jihadistas têm sido usados para dividir as sociedades árabes e tentar eliminar a ameaça que o nacionalismo pan-árabe impõe a “interesses” ocidentais e ao ilegal expansionismo israelense. Isso tudo é o “realismo” estilo Kissinger.

Em 2006, entrevistei Duane “Dewey” Clarridge, que comandava a CIA na América Latina nos anos 1980s. Era autêntico “realista”. Como Kissinger e Nixon nas gravações, Clarridge falava o que lhe vinha à cabeça. Referiu-se a Salvador Allende como “aquele-não-lembro-o-nome, no Chile”. Disse que “ele tinha de sair, porque nos interessava que saísse, era do nosso interesse nacional”. Quando perguntei a ele o que lhe daria o direito de derrubar governos, ele respondeu: “Gostem ou não gostem, faremos como quisermos. Trate de se acostumar, mundo.”

O mundo já começa a desacostumar-se. Em continente destroçado por gente que Nixon chamou de “os nossos filhos da puta”, governos latino-americanos já desafiam os tipos como Clarridge, para implementar boa parte dos sonhos de democracia social de Allende – que era o que Kissinger mais temia.

Hoje, quase toda a América Latina já é independente da política externa dos EUA e vai-se livrando de seu vigilantismo. A pobreza já foi reduzida quase à metade; as crianças vivem mais que cinco anos; os idosos aprendem a ler e a escrever. Esses avanços notáveis são invariavelmente interpretados com má fé no ocidente e ignorados pelos “realistas”. O que em nada diminui o valor que têm como fonte de otimismo para o mundo, para nós todos.

Kissinger e Nixon, Chile-1970:

 

O “Documento n. 4”[1]

O “Documento n. 4” é a transcrição (e inclui imagem do manuscrito) do memorando que Kissinger redigiu, para explicar a Nixon a urgente necessidade e a grande importância, para “os interesses dos EUA”, de os EUA derrubarem Pinochet.”

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        MEMORANDUM

CASA BRANCA, Washington
5/11/1970
SECRETO/SENSÍVEL
MEMORANDO PARA O PRESIDENTE RICHARD NIXONDe:                  Henry A. Kissinger
ASSUNTO:     Reunião do CNS* 6/11/1970 – ChilePara a reunião na qual se considerará a questão de que estratégia devemos adotar para lidar com um governo Allende no Chile

A.    DIMENSÕES DO PROBLEMA

A eleição de Allende como presidente do Chile nos cria um dos mais graves desafios que jamais enfrentamos no hemisfério.

A decisão que o presidente tomar sobre o que fazer sobre O PROBLEMA pode ser a mais histórica e difícil decisão de assuntos externos que o presidente terá de tomar esse ano, porque o que acontecer no Chile nos próximos de seis a 12 meses terá ramificações que vão muito além de apenas as relações EUA-Chile. Aqueles eventos terão efeito sobre o que acontecerá no resto da América Latina e do mundo em desenvolvimento; sobre qual será nossa posição no hemisfério; e sobre o grande quadro mundial, incluindo nossas relações com a URSS. Aqueles eventos afetarão até nossa própria concepção sobre qual é o nosso papel no mundo.

Allende é marxista duro, dedicado. Chega ao poder com um profundo viés anti-EUA. Os partidos Comunista e Socialista constituem o núcleo duro da coalizão política que é sua base de poder. Todos concordam que Allende se dedicará empenhadamente a tentar:

– estabelecer um estado socialista marxista no Chile;

– eliminar a influência dos EUA sobre o Chile e o hemisfério;

– estabelecer relações e vínculos com a URSS, Cuba e outros estados socialistas.

A consolidação de Allende no poder no Chile,* portanto, criará algumas sérias ameaças a nossos interesses e posição no hemisfério, e afetará desenvolvimentos e nossas relações no resto do mundo:

– Investimentos dos EUA (totalizando cerca de 1 bilhão de dólares) podem ser perdidos, pelo menos em parte; o Chile pode deixar de pagar (‘calote’) dívidas (cerca de $1,5 bilhão) devidos ao governo e a bancos privados dos EUA.

– O Chile provavelmente se converterá em um líder da oposição contra os EUA no sistema interamericano, fonte de rompimento no hemisfério e ponto focal do apoio à subversão no resto da América Latina.

– Tornar-se-á parte do mundo soviético/socialista, não apenas filosoficamente, mas em termos da dinâmica de poder; e pode vir a constituir-se em base de apoio e ponto de entrada para a expansão da presença soviética e cubana em atividade na região.

– O exemplo de um governo marxista eleito com sucesso no Chile com certeza terá impacto em – e até terá valor de precedente para – outras partes do mundo, especialmente na Itália; o efeito de difusão por imitação de fenômenos semelhantes em outros pontos afetará significativamente o equilíbrio mundial e nossa posição nele.

Além de os eventos no Chile implicarem essas consequências potencialmente adversas para nós, eles também estão assumindo uma forma que os torna extremamente difíceis para que nós lidemos com eles com efeitos deles, o que, de fato, cria alguns dilemas muito dolorosos para nós:

a) Allende foi eleito legalmente, o primeiro governo marxista a ter algum dia chegado ao poder mediante eleições livres. Ele tem legitimidade aos olhos dos chilenos e de muitos em todo o mundo; nada podemos fazer para negar aquela legitimidade ou pretender que o governo não seja legítimo.

Temos forte tradição de apoiar a autodeterminação e o respeito por eleição livre; o presidente tem forte presença pela não intervenção em assuntos internos nesse hemisfério e de aceitar as nações “como elas são”. Seria portanto muito custoso para nós agir de modo que pareçam violar aqueles princípios, e os latino-americanos e outros no mundo verão nossa política como um teste da credibilidade de nossa retórica.b) Por outro lado, se deixarmos de reagir a essa situação, haverá o risco de nosso descaso ser visto na América Latina e na Europa como indiferença ou impotência ante desenvolvimentos claramente adversos na região que há muito tempo é considerada nossa esfera de influência.c) O governo de Allende muito provavelmente se moverá por linhas que tornarão muito difícil organizar contra ele a censura internacional ou do hemisfério – o mais provável é que apareça como país socialista “independente”, não como satélite soviético ou “governo comunista”.

Mas um governo titoísta [Josip Broz Tito, presidente da Iugoslávia, de 1953-1980 [2]] na América Latina seria muito mais perigoso para nós, do que é na Europa, precisamente porque pode movimentar-se contra nossas políticas e interesses mais facilmente e ambiguamente; e porque seu “efeito modelo” pode ser traiçoeiro.Allende começa com algumas fraquezas significativas em sua posição:– Há tensões na coalizão que o apoia.

– Há resistência forte, embora difusa, na sociedade chilena, contra andar rumo a um estado marxista ou totalitário.

– Há desconfiança contra Allende entre os militares.

– Há sérios problemas e limitações econômicas.

Para enfrentar essa situação, o “plano de jogo” imediato de Allende é claramente evitar pressão impedir que a oposição amadureça prematuramente, e manter seus oponentes no Chile tão fragmentados que ele possa neutralizá-los um a um, conforme consiga. Com esse objetivo, ele procurará:

– ser internacionalmente respeitável;

– mover-se cautelosamente e pragmaticamente;

– evitar confrontações imediatas conosco; e

– mover-se devagar na formalização de relações com Cuba e outros países socialistas.

Há divergência entre as agências sobre o quanto Allende conseguirá ser bem-sucedido na superação de seus problemas e fraquezas, ou se é inevitável que ele siga o curso descrito ou se as ameaças observadas se materializarão.

Mas o peso das avaliações é que Allende e as forças que chegaram ao poder com ele têm, sim, a competência, os meios e a capacidade para manter-se e consolidar-se no poder, desde que possam fazer as coisas ao modo deles. A lógica com certeza indica que Allende terá a motivação para perseguir os objetivos que, afinal, foram mantidos por cerca de 25 anos. Dado que ele tem admitida má vontade profunda contra os EUA e acentuado viés anticapitalista, suas políticas sem dúvida tendem a constituir sérios problemas para nós, se ele tiver qualquer grau de capacidade para implementá-las.

B.   A QUESTÃO BÁSICA

Tudo isso se resume a um dilema e a uma questão fundamental:

a) Esperaremos e tentaremos proteger nossos interesses no contexto de negociações com Allende porque:

– acreditamos que nada podemos fazer sobre ele, seja de que modo for;

– ele pode não vir a ser a ameaça que tememos, ou talvez se suavize com o tempo;

– nós não queremos arriscar que o nacionalismo vire-se contra nós nem queremos arranhar nossa imagem, credibilidade e posição no mundo;

E ASSIM arriscamos deixar que Allende consolide-se, ele mesmo, e consolide seus laços com Cuba e com a URSS, de tal modo que em um ou dois anos, a partir de agora, quando Allende já tiver estabelecido sua base, ele possa agir com mais força contra nós, e nós, então, já estaremos impossibilitados de fazer coisa alguma ou de reverter o processo. Allende de fato nos usaria para ganhar legitimidade e, depois, se voltaria contra nós em alguma questão econômica, o que nos empurraria para o papel de “imperialistas ianques” na questão que ele escolheria.

OU
b) Nós decidimos fazer alguma coisa para impedi-lo de consolidar-se agora, quando sabemos que ele está mais fraco do que jamais estará adiante e quando ele obviamente teme nossa pressão e hostilidade, porque:– Nós podemos ter razoável certeza de que ele se dedica hoje a opor-se a nós;– ele conseguirá consolidar-se e será capaz de opor-se a nós de modos cada vez mais intensos; e

– na medida em que ele se consolida e liga-se mais estreitamente à URSS e a Cuba, a tendência e a dinâmica dos eventos serão irreversíveis.

E COM ISSO também corremos os riscos de:

– dar a ele a questão nacionalista, como uma arma para entrincheirar-se;– arranhar nossa credibilidade aos olhos do resto do mundo, como intervencionistas;– transformar o nacionalismo e o medo latente da dominação dos EUA no resto da América Latina em intensa e violenta oposição aos EUA; e de

– talvez não conseguir, de modo algum, impedir que Allende e as forças que o apoiem se consolidem.

C.  NOSSAS ESCOLHAS
Há diferenças profundas entre as agências, sobre essa questão básica. Essas diferenças manifestam-se essencialmente em três abordagens possíveis:1. A Estratégia do Modus Vivendi:Essa escola de pensamento, que é essencialmente posição de Estado, argumenta que nós não temos, realmente, a capacidade para impedir que Allende consolide-se, ou para forçar seu fracasso; que o principal curso dos eventos no Chile será determinado primariamente pelo governo Allende e suas reações à situação interna; e que a melhor coisa que podemos fazer nessas circunstâncias é manter nosso relacionamento e nossa presença no Chile, de modo que, no longo prazo, possamos estimular e influenciar tendências domésticas favoráveis aos nossos interesses.

Desse ponto de vista, ações para pressionar Allende ou para isolar o Chile não só será inefetivas, mas só conseguirão acelerar desenvolvimentos adversos no Chile e limitar nossa capacidade para ter qualquer influência sobre a tendência de longo prazo.

Para essa visão, os riscos de que Allende consolide-se e as consequências disso, para o longo prazo, são menos perigosas para nós, que a reação imediata provável a ações de oposição a Allende. Essa percepção do desenvolvimento de longo termo de Allende é essencialmente otimista e benigna. Há aí implícito o argumento de que nada assegura que Allende consiga superar suas fraquezas internas, que é possível que ele, pragmaticamente, limite a oposição a nós, e que, se ele se converter em outro Tito não será mau, dado que, de um modo ou de outro, já lidamos com outros governos desse tipo.

2. A Abordagem Hostil:

O Departamento de Defesa, a CIA e gente do Estado, por outro lado, argumentam que é patente que Allende é nosso inimigo, que se movimentará contra nós no instante em que se sentir pronto e com a maior força que possa, e que quando essa hostilidade se manifestar contra nós, será porque consolidou seu poder e então já será tarde demais para fazer grande coisa – o processo é irreversível. Desse ponto de vista, portanto, temos de tentar impedir que ele se consolide agora, quando está no ponto de maior fraqueza.

É implícita, nessa escola de pensamento, o pressuposto de que nós somos capazes de influir nos acontecimentos; e que os riscos de que nossa posição seja criticada em outros pontos é menos perigoso para nós que a consolidação de longo prazo de um governo marxista no Chile.

Dentro dessa abordagem, há, por sua vez, duas escolas de pensamento:

a) Hostilidade Aberta.

Essa visão argumenta que não podemos demorar muito em começar a pressionar Allende e que, portanto, não podemos esperar mais para reagir aos movimentos dele, com contragolpes nossos. Eles entendem que os perigos de tornar pública a nossa hostilidade, ou de iniciar a luta, são menos importantes que qualquer ambiguidade no momento de declarar nossa posição e onde estamos. Esses assumem que Allende não precisa de fato de nossa hostilidade para ajudá-lo a consolidar-se, porque, se precisasse, ele nos confrontaria agora. Que, de fato, Allende parece temer nossa hostilidade.

Essa abordagem, portanto, exige (1) que iniciemos medidas punitivas, como o fim da ajuda que damos ao Chile ou um embargo econômico; (2) que mobilizemos todos os esforços para organizar o apoio internacional à fraca oposição que há no Chile; e que (3) declaremos e divulguemos nossa preocupação e hostilidade.

b) Pressão fria não declarada, abordagem correta.

Essa abordagem concorda com a ideia de que devemos pressionar Allende agora e de que devemos fazer-lhe oposição. Mas argumentam que o modo como embalemos a pressão e a oposição é crucial e pode fazer a diferença entre efetividade e inefetividade. Argumentam que uma imagem dos EUA iniciando medidas punitivas permitirá que Allende mobilize apoio doméstico e a simpatia internacional, por um lado; e que, por outro lado, dificulta, para nós, obtermos cooperação internacional. Argumentam também que é o efeito da pressão, não a posição de pressionarmos, que fere Allende; que a pressão declarada dá a ele oportunidades táticas para neutralizar o impacto de nossa oposição.

Implícita nessa abordagem está a ideia de que o quanto e como nossa opinião pública seja mais clara ou menos clara, e fazer registro público dela, são menos importantes no longo prazo que maximizar nossa pressão e minimizar os riscos de nossa posição no resto do mundo.

Essa abordagem, portanto, exige essencialmente o mesmo tipo de pressões que a abordagem anterior, mas a aplicaria de forma encoberta e silenciosa; na superfície, nossa abordagem seria correta, mas fria. Qualquer declaração ou manifestação pública de hostilidade dependerá das ações dele, sempre para negar-lhe a vantagem de poder declarar que é a parte agredida.

D. AVALIAÇÕES

Como já ficou dito, a questão básica é se vamos esperar e tentar nos ajustar, ou se vamos agir já, para nos opor.

A grande fraqueza na abordagem modus vivendi é que:

– dá a Allende a iniciativa estratégica;

– faz-se o jogo dele e quase assegura que conseguirá consolidar-se;

– se Allende se consolidar, terá ainda mais liberdade para agir contra nós depois de um período no qual o aceitamos, do que se nos opusermos a ele desde já;

– não há razões conhecidas nem inteligência disponível que justifique qualquer visão benigna ou otimista de um governo Allende no longo prazo. De fato, como já ficou dito, um estado socialista racional “independente” ligado a Cuba e à URSS pode ser até mais perigoso para nossos interesses de longo prazo que um regime muito radical.

Nada há nessa estratégia que prometa conter ou impedir ações adversas, anti-EUA, quando e se o Chile quiser empreendê-las – e há razões de muito mais peso para crer que o Chile empreenderá essas ações, tão logo sinta que está estabelecido, do que para crer que não as empreenderá.

O principal problema da abordagem hostil é saber se ela pode, efetivamente, impedir que Allende consolide seu poder. Há pelo menos alguma possibilidade de que nós possamos conseguir isso. Mas também é possível argumentar que, ainda que não formos bem-sucedidos, desde que não causemos a nós mesmos danos excessivos no processo, dificilmente o resultado poderá ser pior do que permitir que Allende se entrincheire; que há, sim, boa vantagem em nos posicionarmos na oposição, como meio para, pelo menos, contê-lo; e melhorar nossas chances de conseguir induzir outros a nos ajudar a contê-lo, mais adiante, se for preciso.

Minha avaliação é que os perigos de nada fazer são maiores que os riscos que corremos tentando fazer alguma coisa, especialmente se tivermos flexibilidade no desenho de nossos esforços, com vistas a minimizar aqueles riscos.

RECOMENDO, portanto, que o senhor [presidente Richard Nixon] tome a decisão de que faremos oposição a Allende, a mais forte que pudermos; e que faremos tudo que pudermos para impedi-lo de consolidar-se no poder; tomando o cuidado de dar a esses nossos esforços uma embalagem e um estilo que façam parecer que estamos reagindo aos movimentos de Allende.

E. A REUNIÃO DO CONSELHO DE SEGURANÇA NACIONAL
Ao contrário de seu hábito, de não tomar decisões em reuniões do Conselho de Segurança Nacional, é essencial que o senhor [presidente Richard Nixon] deixe absoluta e completamente clara a sua posição sobre essa questão, durante a reunião de hoje.

Se os envolvidos não compreenderem completamente que o senhor deseja que o governo Allende receba o peso máximo de nossa máxima oposição, o resultado será uma deriva a favor da abordagem modus vivendi. A questão é, em primeiro lugar, questão de prioridades e nuances. Toda a ênfase na reunião de hoje tem de ser “oposição a Allende” e “impedir que se consolide”; e, não, em “minimizar riscos”.

RECOMENDO que, depois de suas observações de abertura, na reunião, o senhor convoque Dick Helms, para que o atualize sobre a situação e sobre o que devemos esperar. Em seguida, eu apresentarei as questões principais e as opções (como já delineadas nesse memorando). Depois disso, o senhor convocará os secretários Rogers e Laird para que apresentem suas ideias e observações.

Seus “Pontos de Conversação” estão aqui anexados, redigidos conforme o que aqui lhe expus.

Sobre sua mesa, estão:

– Uma relação de opções para o Departamento de Estado e o Departamento de Defesa.
– Um sumário analítico daquela relação de opções.[3]

* CNS: Conselho de Segurança Nacional


[1] Em PDF, em http://www2.gwu.edu/~nsarchiv/NSAEBB/NSAEBB437/docs/Doc%204%20-%20Kissinger%20to%20Nixon%20re%20Nov%206%20NSC%20meeting.pdf

* Todos os sublinhados aparecem assim no original [NTs].

Artigo de John Pilger

Traduzido por  Coletivo de tradutores Vila Vudu


Muito obrigado a Tlaxcala
Fonte: http://www.newstatesman.com/international-politics/2013/09/even-age-realists-and-vigilantes-there-still-cause-optimism
Data de publicação do artigo original: 19/09/2013
URL deste artigo: http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=10606

 

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